terça-feira, junho 29, 2010

Amor inventado

Quisera ser amor
como amor pudera
haver pretendido

Minh´alma chora
ausência nunca existida
posto lugar, espaço
nunca se quer ocorrido

A árvore chora folhas secas
que leva o vento 
o inverno perdido

Teus olhos me encontram
e dizem um tudo
em mudas palavras

Tuas mãos me buscam
no acaso
de gestos cegos

Sinto uma falta calada
de diálogos jamais conversados
de um tempo nunca vivido...


segunda-feira, junho 28, 2010

Falta de sintonia

As palavras não acompanham o discurso
fogem rebeldes rejeitando definições
o discurso tão pouco, segue os atos
ou, talvez, os atos abandonaram o discurso ao longo da via
andam a esmo agora, sem bussola ou mesmo um GPS

discurso sem palavras
atos ausentes de discursos
palavras vazias de atos
equação que não se fecha

atos, discursos e palavras
que seguem por vias distintas

precisa-se de domadores
domadores de palavras
pede-se o uso da não violência
palavras são frágeis e sensíveis
apavoradas, podem se perder

pede-se também rastreador de atos
fundamental seguir trilhas passadas, presentes, quiçá até futuro
que saiba interpretar pegadas e rastros deixados na poeira do acaso

para finalizar, uma boa costureira
dessas bem prendadas
para fazer um bonito patchwork
pede-se que seja atenta aos detalhes
tenha harmonia e equilíbrio na composição

Tenho certeza, que com linha e agulha
minhas palavras presas ficariam ao discurso
e, este, circunscrito, à mandala de meus atos

P.S - Esse poema saiu mais como um grito de guerra quando tudo estava desencontrado. Somente aqui caberia o domador de palavras. Porque na minha vida, não há espaço pra domadores, nem de palavras, nem de atos, muito menos de sentimentos. Sou um ser rebelde por natureza, selvagem, tal como as palavras, quero viver solta, livre, como num verso sem rima. 


Eu sou *

Há momentos que sinto o amor tão forte, 
mas tão forte, que amo tudo, as árvores, 
o poste, a brisa, a pedra. 
Me enlevo com a simples sombra, 
com o tremular da folha, com o inseto que voa. 
Busco os detalhes a minha volta e suspiro. 
Nesses momentos uma felicidade imensa me invade, felicidade de vida, de comunhão. 
Fico leve que nem nuvem, tão leve que suspiro fundo o céu. 
Nesses momentos tenho um sentimento maternal pelo mundo, me sinto meio mãe da terra, 
do planeta, com todas as obrigações 
de mãe... acalentar, alimentar, proteger... 
Sou tão mãe que me acalmo, a paz da 
serenidade materna. 
Nesse momento tão único, 
completo e breve, eu vejo, percebo, perdôo, pertenço e entendo. 
Nesse momento Eu Sou!


* - Momento de estar sendo!!!



domingo, junho 27, 2010

Espectro da alma


pós noite de tempestade
me abro ao sol pra secar toda chuva que há em mim

na janela da minha alma se forma o mais lindo arco-íris



 


P.S - saiu esse poeminha curto enquanto acordava, esse vai pro Ge. que nos inspira com seus poemas lindos lá no sem catraca

sábado, junho 26, 2010

Multivíduos ou A nova Teoria da Relatividade Existencial

Multivíduos ou A nova teoria da relatividade existencial


Somos multi, multi indivíduos,
acompanhando a lógica do multi universo

Descobriu-se, apesar das não provas,
que o universo não é mais uni,
agora, é multi, assim é multiverso

E, nós seres,
assim como o universo, não somos mais INDIVÍDUOS
somos multivíduos, multi nos vários papéis que desempenhamos

Será aqui também a soma das partes maior que o todo?

A soma dos vários EUS em nós é maior do que o meu EU, único indivíduo?
equação interessante...
basta matematizar a construção do eu e minha atuação dentro deste universo múltiplo que encontro minha fórmula.

Múltiplos eus em Múltiplos universos

Afinal, quem somos? 
podemos nos desfazer das várias camadas assumidas,
como papéis personagens de mundos distintos?

Dentro do nosso eu habita um sistema complexo,
vários papéis, interações com seus outros papéis,
interações de seu outro eu, a cada interação há uma construção nova,
nova variável que não pode ser desassociada de você.

Interações coexistem, simultâneas nos vários papéis,
teoria dos conjuntos, conceitos primitivos,

alguns são eventos excludentes outros não...

Como coabitar dentro de mim tantos eventos? alguns excludentes...

Explica-se aí as culpas das noites de cada um...

Posso efetivamente me despir de minhas várias camadas, e me apresentar desnuda de mim?

Há um conjunto vazio? 


O meu conjunto vazio não se apresenta vazio, a minha essência desnuda, talvez, minguada, tal qual um individuo de Biafra não é vazia, é conjunto universo.




Não se fazem mais mulheres como antigamente

Estava eu no café da manhã conversando com meu filho de nove anos sobre sua paixão não correspondida na escola.
- Mãe, a Julinha me pede beijos na bochecha...
- É mesmo, Thomaz? e você dá?
- Dou. Eu já assumi que gosto dela.
- E ela, gosta de você?
- Não, ela disse que não, mas no recreio vive correndo atrás de mim e coloca a mão em mim o tempo todo, mesmo assim, ela fala que não gosta de mim!
Fiquei com peninha dele, e tentei ensinar-lhe o que fazer, o que funciona com as mulheres, mas ele muito sério disse:
- Mamãe não adianta, não se fazem mais mulheres como antigamente! Não tive o que dizer, e escondendo o riso acabei concordando com ele, é, não se fazem mais crianças como antigamente!


terça-feira, junho 22, 2010

Corvos e Girassóis

A

imagem surge trazendo uma ruína no canto esquerdo do quadro
ruína de casa branca antiga, sem telhado, porta ou janelas
sem qualquer referência de passado, nenhum vestígio de história...

o sol incide a sombra na parede em queda
a sombra na pedra
o ar ainda úmido preserva o orvalho
manhã de nove horas 

Mais ao norte se estende o campo de girassóis
pintura espontânea nascida de uma palheta celeste
o céu de um azul puríssimo lembra a cor dos olhos dos anjos, 
anjos nórdicos, diferente dos anjos latinos ou asiáticos

Na mesma cena ao fundo grasnam corvos aos bandos
pintam o céu em uma nuvem que se aproxima
Sobrevoam o campo, e em permanente estado de luto, tristes, fogem do inverno.


À margem da imensa melancolia do revoar 
perdura a plasticidade da cena
os corvos grasnam a solidão da alma
o frio do inverno
a dor de existir

Fugiram de outro conto talvez
entre um virar de páginas e o molhar de dedos
e por certo, como libertos recentes não sabem aonde ir

Revoam aos bandos, fogem do quadro

Buscam melhores campos, paragens, memórias de outras histórias 
a mesma cena repetida a cada ano 
um parque, um jardim, umbanco,
talvez, em outro conto

uma mulher, os espera...


P.S - O poema homenagem feito a Van Gogh, talvez em todos nós resida um pouco de solidão e melancolia, um buscar de vida ou então um perder de vida.


segunda-feira, junho 21, 2010

Lua caolha

único olho do céu a me olhar languidamente
um circulo brumoso aumenta o mistério
a pálpebra pesada cai sobre o olhar
lembrando uma amante cansada de um velho bordel

eu e a lua
dama caolha, e eu
caolha também, de sentimentos e coração
companheiras na noite

meu peito é todo escuridão
infinito de um céu imenso

meu coração, como lua crescente
inunda meu peito,

e
             brilha,
                                caolho e solitário.


P. S - Ontem quando fui dormir a lua me incomodou, seu olhar invadia meu quarto como uma vizinha curiosa e indiscreta, lhe percebi languida e solitária, como um grande olho flutuante no céu. Cansada, dei-lhe as costas e fui dormir, mas hoje quando acordei seu olhar solitário ainda me acompanhava. Assim, para expiar minha culpa de faltosa à lua, lhe fiz um poema. Beijos Lua.

sábado, junho 19, 2010

Nós seres comedores *

Quem me conhece acompanha minha luta, batalha interna em me tornar um ser mais evoluído, integrado à natureza, e, no meu caso, vegetariano. Há uns 9 anos que vivo entre estar vegetariano e onívoro. Sim, estar, um amigo disse que eu não era vegetariana, estava. Ele estava certo, nesses nove anos nunca fui totalmente vegetariana.

Tudo começou na gravidez, fui fazer yoga e tive oportunidade de conviver com seres mais evoluídos, que se preocupam com o planeta, energias e seres vivos não comestíveis. Sou uma pessoa altamente influenciável, ainda bem, na adolescência minha mãe vivia me dizendo para olhar as companhias, e eu morria de medo das más companhias que comiam criancinhas. Assim, passei incólume pela adolescência, sem ter comido criancinha alguma, isso só foi acontecer mais tarde, na fase adulta.

Pois bem, nesse grupo comecei a ter preocupações com alimentação, arroz cateto, feijão azuki, algas, pastas de soja, pão sem glúten, clorofila, e por aí vai. Sou extremista do tipo radical, quando mergulho, mergulho fundo, não dou vôos rasantes. E assim, fiquei mais radical dos mais radicais, parecia que tinha nascido vegetariana.

Tudo piorou quando influenciada por um amigo, comecei a querer me alimentar com comida crua, esse então comia pão assado no calor do sol. E, o interessante é que uma viagem leva a outra viagem e a outra, sempre com companheiros de viagem mais interessantes, que contribuem para encher nossa maleta de viagem cada vez mais com esquisitices. Dessas minhas viagens comecei a beber água com argila que é excelente, carvão vegetal em pó, clorofila, suco verde, babosa etc.

Recentemente, não tão recentemente, desde que me separei, venho tentando manter a alimentação mais saudável e não comer seres vivos com mobilidade.(Segundo um amigo, ele é carnívoro porque é contra comer seres imóveis, os vegetais nada podem fazer para fugir a nossa caçada). Mas, digo que é difícil, fico sempre na linha tênue em ser mais evoluída e me levar pelos anseios primitivos da carne que me acometem. Assim, venho alternando períodos evoluídos com períodos de barbárie (desculpem-me, seres comedores de carne), mas é assim que me sinto.

Toda vez que acho que estou caindo em tentação entro naqueles sites vegetarianos que mostram porquinhos, vaquinhas, pintinhos com as histórias mais tristes e eu choro horrores (meus filhos já até sabem e perguntam - mãe, você esta vendo a vitela de novo!?). Depois, saio renovada e fico ainda mais determinada a não me deixar levar pelos meus instintos de predadora. Visitar esses sites aplaca minha fome de carne, mas da última vez, não adiantou muito...


A primeira vez que sucumbi, eu já estava há um bom tempo sem comer carne e vivia sonhando com bacon, presuntos e costelas. Verdade, tinha um sonho que era recorrente, uma festa romana com bailarinas em roupas esvoaçantes dançando com pernis assados em bandejas. Não me pergunte o porquê das bailarinas, nem eu nem a analista decodificamos o sonho.

Nessa época eu tive uma gastroenterite braba, quase morri (sou exagerada) fiquei três dias comendo papa de arroz sem tempero e óleo algum. No terceiro dia, tonta de fome fui ao supermercado comprar alimentos, e sem me dar conta me peguei parada em frente à seção de frios, fiquei namorando todos aqueles pastramis, presuntos, parmas e mortadelas. Não agüentei muito tempo, comprei meio quilo de alguma coisa vermelha, cheirosa e saborosa, não esperei nem chegar em casa, comi uns 3 sanduíches no estacionamento. No dia seguinte comi feijoada e no terceiro dia, um joelho de porco em um maravilhoso restaurante alemão. E o pior, é que não senti nada, nada, nenhum mal estar, absolutamente, nada, nada que pudesse dar forma ou cor a uma possível culpa de comer meus irmãozinhos.

Os amigos deliram de felicidade quando você cai em tentação, é como se você tivesse uma doença grave, e, de repente, estivesse livre da morte. Não entendo.

A carne de vaca eu não como até hoje, mas, de carne branca passei a comer carne bege, mais recentemente rosa e laranja. Já me percebi relativizando e reclassificando, o camarão é quase um vegetal, poderia ser uma planta, a lagosta também não conta, o peixe é peixe e Jesus distribuía, assim, não tem problema.

Da última vez, voltar a comer carne foi uma decisão do universo e não minha. Eu estava novamente sonhando com carne, me sentindo comendo picanha, mas, resistia bravamente, até um sábado que passei novamente por um jejum forçado. Cheguei em casa querendo enfiar o pé na jaca, liguei para uma amiga que estava passando mal, fiquei com preguiça de sair e acabei pedindo uma pizza. Consegui resisti à tentação de pedir uma pizza de peperoni e pedi uma de escarola, bem vegetariana!

Trinta minutas depois eu abro a caixa e meus olhos se arregalam, na caixa havia as mais lindas rodelas de lingüiça calabresa! Nem pensei em ligar e reclamar, pacientemente retirei cada rodela, uma a uma. Até que percebi meu dedos sujos e fui lamber as pontas, senti o sabor da lingüiça, lambi mais uma vez. Por fim, decidi lamber as próprias rodelas! Lambi umas quatro, na quinta decidi que poderia mastigar. Arrependida e com culpa cuspi a carne, mas engoli o sumo.... Olhei bem, olhei de novo e em um gesto repentino e impulsivo peguei todas as rodelas e joguei de volta na pizza. Enrolei bem e comi tudo, a pizza inteira, gigantesca, sozinha recheada de calabresa! (acho que nunca mais vou ter coragem de olhar um porco nos olhos novamente)

Como o meu amigo havia dito, não existem coincidências e temos que entender as mensagens do universo. Como ser inteligente (tudo bem, não entendi a geladeira), mas essa mensagem aqui era clara. A carne tinha chegado como um sinal do céu, como um presente para mim, e presentes a gente não questiona, ainda mais presente do universo! Assim, estou mais uma vez às voltas com meu lado bárbaro e comedor de seres (não por muito tempo, já que minha consciência e culpa não permitem), mas, até lá vocês, caros amigos, poderão ter o prazer de me convidar para um churrasco.






Tirinha do Sapobrothers


* Reeditado - Estou sentindo necessidade de rir, de derreter um pouco a neve branca que cobre essas paredes do blog! (Derreti, tanto que pintei as paredes de arco-íris)


Grande beijo a todos!

quarta-feira, junho 16, 2010

Paixão

Suspensa
de tudo
Suspensa
de mim

A alma num exercício de liberdade
Pede permissão para se ausentar do corpo

O corpo num exercício de vida
Pára e lembra-se de respirar
Por um breve segundo
Breve
Havia esquecido de buscar o ar
Busca lá dentro, bem fundo
Não no peito, mas na alma

Esta, liberta que estava
Saiu para passear
Saiu para ver as flores
o céu azul...
o cheiro de jasmim...
Relembrar teus olhos

Pobre alma 
perdida que estava
Esqueceu de voltar

Ando apaixonada..., minha alma tal qual no poema.... Às vezes, esqueço de respirar, deixo esse exercício aos mortais... Alcei voo e caminho agora entre as estrelas. O objeto da paixão? Pouco importa. Amo tudo e a todos, a vida, as flores, o ar. Carrego em mim um sentimento etéreo, ausente de formas... Na angústia de entender, preencher, recolho as margaridas do campo e coloco no peito, enfio fundo fazendo um tampão. Agora sim, tenho em mim, além das dores, todas as flores do jardim...

terça-feira, junho 15, 2010

A maldição de Graham Bell *

* Eu sei que é longo, eu sei que não é poesia, mas tenha força, coragem, disposição e leia (rsrsr)! Bom dia de qualquer forma, pra você que chegou até aqui!


Acredito realmente que tudo é energia e estamos conectados. Neste caso aqui, eu e os eletrônicos. Outro dia, um amigo recente disse que precisamos perceber as mensagens do universo, já que as coincidências não existem.

Pois bem, preciso de ajuda. Primeiro, descobri que tenho a maldição de Graham Bell, é isso mesmo, fui amaldiçoada por Graham Bell. Estou fadada por quanto existir a ter problemas eternos com os telefones, e não somente os celulares, os fixos também. Até aí nada, você pode dizer que não é surpresa dado o nosso serviço de telefonia. Esse ano, em curto espaço de tempo, troquei de telefone 4 vezes.

O primeiro pregava peças, você discava para alguém, o telefone completava a ligação e quem atendia era outra pessoa. Ele tinha vontade própria, ligava sozinho como também desligava na cara da pessoa. De uma grosseria impar. Não ligava para ninguém que começasse com as 6 primeiras letras do alfabeto, nem para alguns números. Assim, minhas ligações ficavam limitadas a alguns números cabalísticos ou o que me restava do alfabeto. As pessoas reclamavam “você não liga mais pra mim”. Mas, como explicar que a culpa era do aparelho. Mensagens na secretária? Estas nunca chegavam, e se chegavam, chegavam depois da reclamação de que eu não havia retornado. Desisti! Fiquei com a pecha de que sou um horror, que não sei usar celular, não atendo, não retorno etc...

O segundo, um palm magnifico, falava como todo bom telefone, além das mil e uma utilidades que eu nunca cheguei a descobrir. Também cozinhava, pregava botões e de tanto cair no chão desistiu de ser telefone. Só queria saber de tirar fotos, até atendia uma ligação de vez em quando, mas a coisa dele mesmo era fotografia. 

O último durou um mês, e num ato total de rebeldia mantém em sua tela de cristal liquida uma imagem abstrata linda, digna de museu de arte moderna. Assim, não sei quem está me ligando nem sei se estou ligando para o numero correto, mensagens nem pensar, só vejo um envelope azul piscando.

O fixo durante 3 meses fazia conference call com a vizinhança, primeiro com o pessoal do prédio, depois se aventurou pras redondezas e foi para bairros distantes. O bom é que as pessoas são simpáticas, compreendem, desligam, te ajudam, teve um que até fez a ligação pra mim. Mas, os meus problemas com telefone incluem também perda, assaltos, mergulho no vaso sanitário, refrigerantes e coisas mais. Por isso, a cisma da maldição...

Esse meu amigo que entende de coincidências, disse que eu preciso compreender as mensagens. Eu ainda não entendi!?E, o pior é que as mensagens continuam chegando!!!! O rádio do meu carro também não quer ser rádio, só mostra as horas... há também a máquina fotográfica..., o depilador... e sei lá mais o quê.

E, agora a geladeira, ela está tentando fazer contato comigo! Eu sei, eu sei pela insistência! Mas, meu Deus, eu não falo língua de geladeira e a assistência não funciona finais de semana e feriados.
Ela apita ininterruptamente (agora está silencio, de vez em quando ela cansa e pára, dá até pena), e acende umas luzinhas. Obviamente, como mulher antenada e esclarecida busquei manual, site, fóruns e nada. Há todo um padrão de apitos, eles tocam em uma freqüência crescente, aceleram, diminuem e depois param. Cansada, sem compreender, desliguei a pobre da tomada, acabei esquecendo e hoje de manhã quando me lembrei fui correndo ligá-la. Tentou novamente em seus esforços refazer os contatos, mas acho que desistiu, já que há um bom tempo não mais apita.

Outro amigo, disse que o que eu precisava mesmo era de um marido. Não sei... Será que os maridos captam as coincidências do universo e as traduzem? Nunca ouvi falar isso, mas soube que um bom marido, daqueles bons, sabe usar a caixa de ferramentas... 

Assim, sem marido, estou eu aqui a me perguntar, que coincidências são essas? Que mensagens são essas que me chegam e não percebo? Por favor, aceito conselhos, sugestões e o telefone de uma assistência técnica. 

domingo, junho 13, 2010

Mulher

sou mulher,
m  u  l  h  e  r,
palavra que sugere
entre outras coisas
uma vagina, cheiros 
pelos e seios

sou além da palavra
não me defino em comportamentos
em vestidos, pernas cruzadas
afazeres domésticos
filhos que ainda não tive

meu significado?
Indefinido....
todavia busco...
arduamente, 
manhã, tarde e noite,
um espelho atrás da imagem
uma rota, solução, resposta
uma via que conduza ao eu
idealizado, sim!
caso contrário
o teria encontrado
busca frenética
trabalho, academia, casa
amor, sexo, lazer, dever,
eu,
eu...

sinto, busco
choro, rio...

Título branco

Oh Deus, o que significa o branco?

Se o branco não é a ausência da cor..., é o conjunto de todas as cores, ...como fica então..., o branco da folha..., o branco da página..., o branco da vida?

questões...

Talvez a terra não desse voltas em torno de si, se tivesse aonde ir
Talvez eu pudesse colher rosas, se houvesse um jardim
Que cor seria o céu, se não fosse azul

I wasn’t at home last night

(poesia matinal de alguém com problemas biliares) não terminada

queria acordar azul
e descobrir o mundo verde
quem sabe, em meio as cores

eu pudesse dar conta
do meu jeito torto de ser...

ou então, ter uma palheta colorida!

sexta-feira, junho 11, 2010

Completude

Vida
que se resume no instante

não há dor, não há limites, não há crenças

o ser diáfano flutua
sem o peso da consciência, há somente o prazer de ser

neste lugar, onde o tempo não tem lugar
o tempo, o velho e temido tempo
sem querer perder detalhe algum

grava
          de forma indelével
                                        o momento...

quarta-feira, junho 09, 2010

Desassossego da alma *

Minha alma inquieta busca,
Caminhos outros,
Outra cor para o céu,
Outra cor para o mar,
Para vida busca definição,
Para o tempo,
Outra forma de dizer não,

Minha alma inquieta busca,
Respostas nunca ditas,
Conceitos jamais criados,
A face de Deus,
O endereço do céu,

Minha alma inquieta,
É criança, lúdica,
Busca um amor impossível,
De desejos insólitos,

Minha alma inquieta,
É sem descanso,
fala, ama, grita
atropela momentos,

Tem urgência de vida,
Felicidade e desejos,
E no caminho vai...,
Levando flores,
Provocando amores,
Causando espantos.

Vai alma, vai,
Mas, não se esqueça,
No caminho, de se hidratar.


* Entendem agora porque minha alma fugiu...., o trabalho é deveras pesado...

terça-feira, junho 08, 2010

Desalmada *

Se perguntarem por onde anda minha alma
Não saberei dizer a resposta
A dita cuja pediu alforria
E num grito de liberdade
Abandonou-me há 3 dias
Não deixou recado
Na porta da geladeira
Nem mensagem no meu celular

Viram-na em um baile
Em Olinda
Dançando frevo
Disseram que estava completamente bêbada
Nem parecia uma alma

E, eu?
Aqui perdida
sozinha
Sem alma
Desalmada
Completamente só.

* Reeditado

segunda-feira, junho 07, 2010

Timidez matinal

A manhã me sorri tímida,
em meus movimentos bruscos,
assusto a delicadeza dos raios de sol,

tento ser gentil com meu reflexo no espelho,
a intensidade dos momentos,
não se traduz em passos mais lentos,

inspiro a paz das notas que me chegam,
calma pretendida de uma melodia distante,

a mão de um outro poema me reconforta*.

Namastê


* poema do Ivan Bueno em Empirismo Vernacular http://eng-ivanbueno.blogspot.com/2010/06/mao-e-o-barco.html

brincadeira do amor puro *

O amor puro pulou o muro,
Por medo do escuro,
No escuro tem bicho papão
E mula sem cabeça,
Amor puro não quer preocupação,
Quer dormir com luz acesa e
Canção de ninar
feito criança,
Precisa de palavras de conforto e pegar na mão,
Também é travesso, prega peças nos desavisados,
Com certeza foi brincar de cabra cega,

Amor puro quer leveza,
Brisa nos cabelos,
E picolé de limão...

*Resposta brincadeira a um amigo que disse que o amor puro pulou o muro. Mas, o verdadeiro amor puro só pula o muro pra roubar corações!

sábado, junho 05, 2010

Complemento de essência

Algumas vezes olho para o céu e busco uma estrela, saudade... A imensidão do firmamento me invade o peito, me preenche. Não é solidão, é nostalgia. Nostalgia de um lugar não lembrado, de uma companhia muito querida, aguardada. Caminho por trilhas que faço, enquanto chuto pedras como quem pensa pensamentos alheios. As folhas secas caem me lembrando a finitude da tarde. Caminhar, buscar, existir é solitário. Companhias outras aparecem, mitigam o esforço, mas o trabalho é meu. Labuta diária de quem busca significados. Te aguardo.

quarta-feira, junho 02, 2010

Incompletude

Te amo,
Mas isso você já sabe...

Te quero,
Mas isso você já sabe...

Te adoro,
Mas isso você já sabe...

O que você, nem eu,
Podemos saber,
É o tamanho de um nada
Que não completamos
E que diz tudo...

sexta-feira, maio 28, 2010

Ausência do verbo *

Neste instante me vejo muda, calada, ausente de palavras e símbolos, perdida de significados. Qualquer instrumento afinado para tocar, descrever o momento. Notas surdas silenciam. Contemplação. Céu escuro pontilhado de estrelas. Infinitude. O ser desperto alça vôo e contempla sua própria eternidade. Mergulha no azul da prússia do universo, viaja a mais longínqua galáxia e traz poeira de estrela no bolso da alma. Quem somos e o que fazemos das nossas culpas, dos remorsos e todos quereres, tudo, tudo se perde neste abraço perfeito, na dobra do corpo que recebe o beijo. O caminho de volta para sempre perdido nas encruzilhadas das curvas, nos declives dos montes e bifurcações.

Cavalgada no prado, capim gordura que ondula, cheiro de mato, rocio cedo que umedece a face. O cavalo veloz imprime velocidade e voa no vento. Na corrida urgente carrega cabelos, boca, a mão que afaga a face. Beijos alados, doces, suaves, do sabor da flor, do amor, da paixão que vicia. No céu azul teu olhar na lua branca luzidia.

Quando a noite se esconde e as estrelas repentinam se apagam, os corpos no caminho se perdem. Na perdição dos sentidos, a respiração trôpega se corta e entrecorta, suspensa lança os corpos em fuga, cúmplices das sombras mudas. Fogem alados os dois aliados, voam alto bem alto, puros e inocentes voltam ao paraíso, de onde foram há muito deportados, e agora retornam, à casa, finalmente, perdoados. Parceiros da louca aventura em caminho acidentado. A nau sem porto que resgata o branco da espuma da onda que finda na praia. Viagem louca, caravana sem pouso, itinerante, de países perdidos e mares distantes. Seres encantados de contos de fadas, habitantes de cavernas e grutas escuras, despertos da hora convidam a celebrar.

Não quero voltar, me deixe lá, me abandone ao relento, perdida nas pedras, na areia, abraçada ao tronco da árvore, carvalho em flor. Quero ficar esquecida, esquecida de mim, da vida, perdida neste espaço de tempo nano eterno da minha pequena morte. Ah me deixe morrer, a morte é doce e nela me encontro.


Abro os olhos e nos vejo, abraçados, a representação do mais belo, estética divina, pintura, musica e toda poesia. Afinal, compreendo e sorrio tranqüila, agora sei, para este momento o verbo ainda não foi inventado.


(*) Reeditado

segunda-feira, maio 24, 2010

Sede *

A estrela que brilha na borda da taça de cristal
É rubra

Luz que tremula na transparência
Lança cor no branco da toalha de linho
e deixa um rastro tinto
De vida e paixão

Não tenho sede de um copo de vinho
Tenho sede de ti
De beber-te inteiro
Sorver gota a gota
Feito vinho mais precioso
Quero beber todos seus líquidos
Quero beber pensamentos
Emoções e gestos
Quero beber teu cheiro
Tua risada
A ruga do canto dos olhos
Tuas lágrimas
Para jamais vê-lo chorar

Quero beber você
Beber, beber
E me embriagar

Bêbada, sair numa viagem louca
Passear nas palavras da página de um livro
Em meio às flores de um campo de girassol

No revoar com os corvos
No parque

Nesta viagem, sou eu e sou todas

A sombra da pedra da manha orvalhada

E, como bêbado perdido na mais pura noite
Quero beber-te continuamente
E, no traçado torto de meus passos
A cada gota eu me aqueço
A cada gota eu me perco

E, no entanto, eu me acho
Sempre um pouco mais.


(*) reeditado

domingo, maio 23, 2010

Aprendiz

sou eterna aprendiz,
aprendiz de mim mesma,

a cada dia me descubro outra,
aprendo mais, descubro novas facetas,
novos amores,
me descubro mais mulher e mais menina,
são novos sonhos, novos medos,
é um eterno aprender,

com paciência ensino a menina mulher,
a dar os seus passos,

como criança se deslumbra com o novo,
se encanta com as flores,
brinca com a sombra e as borboletas,

como mulher se deslumbra com a vida,
com o renovar do amor,
a sedução do sexo,

menina, mulher, amante,
bruxa, poeta, mãe
tantas que se encerram em mim,

abro a porta e as liberto,

agora,
lá no meu céu brilham todas.

quinta-feira, maio 20, 2010

Constelação

carrego em mim muito mais que lembranças,
carrego a história, o peso,
carrego toda a dor de meus antepassados,
a liberdade perdida,
o casamento forçado,
as vidas tomadas,
o peso da morte,
o peso da solidão,
o abandono,

carrego em mim as culpas,
culpas da omissão, culpas da agressão,

carrego em mim, o sofrimento, a dor da humilhação,
a mãe que se foi mais cedo, os filhos que não nasceram,
a vida interrompida,
toda a luta mais que merecida,

insetos presos nas teias emaranhadas,
vidas que se repetem, cruzadas,
sentimentos que não são meus,
trilhas traçadas em pegadas alheias,
passado eterno de um retorno presente,

mas, hoje me despeço e rendo a homenagem,
a todos, heróis de suas vidas inglórias
reconheço, agradeço, me liberto

as minhas costas forças se elevam,
à frente, minha trilha e meus passos,

enfim, sou eu,
peregrina do meu próprio destino,
sem adereços, sem bagagem, somente eu.

terça-feira, maio 18, 2010

Ponto de Interrogação

seria mais simples
ter todas as respostas
não me revolveria
de dentro prá fora
numa acrobacia irregular

viveria sem angústias
“no doubts”
caminharia mais leve
sem o peso da decisão
o de não decidir por ir, ou ficar
o de ser ou não ser
um sim ou um não…

mas pensando bem…
o que seria eu, sem o ponto de interrogação?

sábado, maio 15, 2010

Presente de aniversário

A você, no seu aniversário, desejo muita luz, muito amor, estrelas no céu para iluminar seu caminho. Você foi inspiração de vida, missão aprendida, apoio no meu caminhar, promessa de felicidade. Não me esqueça e olhe sempre por mim. Desculpe-me se não fui uma aluna tão aplicada e deveras teimosa. Pra você o poema abaixo que é seu! Grande beijo!

algumas vezes não me recordo da cor do seus olhos,
mas as lembranças me levam…
como folha ao vento,
trazendo imagens de ontem,
impressas num filme antigo,
em branco e preto,

lembro-me de dedos cegos,
que trilhavam caminhos,
de uma boca sôfrega,
que sugava-me os seios,
de quadris arquejantes...

e eu, a te observar dormindo,
velando teu sono,
na tarde triste,

transcorriam segundos, minutos, séculos,
do meu posto de guardiã,
eu eternizava o momento.

quarta-feira, maio 12, 2010

Coerência insensata e/ou Incoerência sensata *

Por que me cobram coerência em atos
Quando meus discursos desatam?
A incoerência é sensata.
Prefiro não ser o eu dos momentos distintos,
Prefiro dizer não aos meus credos tão ricos,
Sagrados de outros momentos,
Que não o agora,
Agora, já não sou mais eu,
Fui eu ontem,
Hoje sou outro eu,
O de ontem gostava de nietzchie
ouvia Wagner,
E arquitetura de linhas retas,
O de hoje lê poesia,
ouve Bolero de Ravel,
E, talvez, Carmem de Bizet,
Construção com linhas mais elaboradas,
Entre o eu de ontem e o eu de hoje,
Há toda uma distância dicotômica de quereres,
Minha defesa não se sustenta em discursos vazios,
Rejeito a retórica pura e simples,

E, como naufrago no instante,
abraço a incoerência da vida,
Incoerência dos atos,
Incoerência das palavras,
Incoerência dos quereres,

As coerências não se falam,
Simbologia metafísica nesses universos paralelos,

Meu Deus, que dimensão é essa que me cobra sensatez e coerência?

Cansada, viro pro lado e tento dormir,
Não o sono dos justos,
Pois, para este falta-me merecimento,
Mas, o sono dos incoerentes
Desses, que caminham ao acaso
Sem saber pra onde ir.


(*) reeditado

domingo, maio 09, 2010

Noite chuvosa

ouço a chuva lá fora,

o vento na janela,
a noite chora.

em cumplicidade com a chuva e com a noite, também choro,

a água da chuva lava o escuro da noite,
minha alma, molha plantas, ruas e pensamentos,

suas lembranças chovem na noite,
molham minha alma, meus pensamentos, minhas ruas,

caminho noite a dentro, sou a chuva que molha, a noite que cai,
o vento que sopra,

no caminho busco contornos, contorno da noite,
você,
busco você na noite,
na chuva,
na memória,

te busco na noite chuvosa.

sexta-feira, maio 07, 2010

Momento (reeditado)

o carro em movimento
cruza sinais, ruas, esquinas
a noite se incipienta

no rádio toca uma balada em notas altas e cinzas
notas escuras feito a noite e o vazio
balada que fala de amores perdidos
de dores, de desejos, do ontem, do hoje e de um futuro

me deixo levar pelas notas
me deixo levar pelo vento
me deixo levar pelo momento
momento de doce abandono

bailarina na sala ao lado
praticando no silencio
embalada por memória
música do ontem
que envolve e cobre
feito véu de seda
que escorrega e desnuda

despida me apresento
tão pura e tão nua

e, me ofereço
em sacrifício, de vida

ser
recém nascido
sem máculas
inocente, leve e transparente

o que sinto, o que sou
não explica a angústia do momento
nem traduz a angústia da horas

tempo passado e tempo futuro
não convergem para tempo presente

convergem para um não viver do agora
impermanência dos sentidos e,

um querer eternizado de existência.

quinta-feira, maio 06, 2010

Segredos

Meu segredo, ah...
é ser como cadela no cio
deixando você se embriagar com
meu cheiro e se perder
em mim.

Meu segredo talvez, seja a minha loucura
minhas crises de choro
meu amor pela vida
o meu cheiro doce
meu jeito moleque
de sorriso maroto
o mal humor habitual,

talvez, eu nem tenha segredo
sou clara, cristalina
como chuva que vem e lava.

segunda-feira, maio 03, 2010

Viver

quero brincar de faz de conta
e fazer de conta que sou tua
nas linhas das entrelinhas
uma história se faz

um toque ingenuo
um gesto ao acaso
detalhes ricos
guardados em caixas bem seguras
feito tesouro escondido

a vida é feita de vida
entao, que a vida seja assim
bem vivida

cheia de amores e paixões
e de dores de cotovelo

e cheias de manhãs
que é pra gente recomeçar
e fazer tudo de novo

sexta-feira, abril 30, 2010

Convite a vida II


Vem, da-me tua mão,
Mergulhe em meu rio,
Minhas águas são cristalinas,
Meu leito é tranqüilo,
E, te levo direto pro mar.

Vou te mostrar tesouros perdidos,
Navios fantasmas,
Sereias pra te encantar.

Vem comigo, embalo teu sono e te faço sonhar,
Sonhar acordado com fadas e duendes.

Vamos brincar de colher flores,
Passear pelo bosque,
Deitar na relva verde e sorrir para o sol.

Vem que a vida não espera,
Vamos correr pelos jardins do mundo,
Passear entre as estátuas e a hera.
Vamos brincar de pique esconde,
Entre os canteiros de rosas, jasmins e primaveras.

Vem, me ache, me encontre de mim,
Estou aqui perdida e necessito teus passos.

Venha, vamos brincar com o vento,
Que a flor nos chama e avisa,
que a vida é o agora.

Despe-me,
Retira meus véus,
Que meus sentimentos são puros.
Abraça meu corpo que tenho frio,
Faz me carinho e me leva às estrelas,
Que eu gosto de lá.

Lá longe, vê, onde Calisto virou a Ursa Maior.

Não vamos ficar parados, que a vida é breve e o tempo corre.

Anda, não chores,
Pois não te deixarei só,
Brincaremos e seguiremos juntos,
E, quando chegar à noite e estiverdes cansado,
Chamarei os anjos pra te proteger.
Não temas,
Ficarei ao teu lado e velarei teu sono,
Por toda a madrugada até o amanhecer.

Anda, que o dia já acordou,
E este nos espera,
Há parques, jardins e,
A menina na janela.

O raio de sol nos apressa,
Vamos,
Pois, eu também tenho pressa.
Tenho pressa de vida,
Tenho pressa de ti,
Tenho pressa do teu corpo em meu corpo.

Quando teus lábios me bebem,
Não sou mais eu,
Sou você perdido em mim.

Anda, me busca, me devolva a mim,
Sem minha alma, soçobro aos ventos.

Tens sede? Bebe-me,
Sou como fonte no deserto,
Leve e lúdica.

Tens fome? Come-me,
Meus frutos são maduros,
E, te prometo,
Não serás expulso do paraíso.

Vem agora, e por alguns instantes,
Repousa tua sesta em mim,
Minhas sombras são frescas, e,
Minha brisa um convite a dormir.

Ei, passou-se o instante,
Acorda-te de teu sono,
Esqueci de contar-te um segredo,

A vida pode ser perene,
Mas, eu, sempre serei,

Teu eterno poema.



Escrevi esse poema no inicio do blog, estou reeditando-o, pois me sinto assim hoje! Após um período de lembranças e reluto, quero fazer um convite a vida!

Vamos vivê-la, apesar dos nossos vários eus, culpas e temores. Vida, que te quero viva, pulsante, intensa, ardente, cheia de cores e sabores!

quinta-feira, abril 29, 2010

Saudade

Sinto uma falta muda de ti,
meu inteiro é fracionado,
agora sou partes,
mosaico de mim,

fracionei-me quando partiu,
em meu papel personagem,
fingi-me inteira,
pra continuar,
pra caminhar,

mas, agora sou parte,
parte do ontem,
e, de um futuro jamais presente,
de uma história nunca contada,

agora, sou parte,

mas, totalmente inteira nas lembranças.

terça-feira, abril 27, 2010

Esquizofrenia

De tempos em tempos me deparo com os meus vários eus. Me dei conta, que não gosto muito deles. Como conviver com esses múltiplos de mim?

Talvez não tenha, e eu possa cometer um assassinato em série. Pra que me serve meu eu autoritário, o tirano, o controlador, o crítico exacerbado, o vaidoso?

Algumas vezes percebo que conspiram as minhas costas, e tentam me sabotar... E, eu, ingênua que sou caio na armadilha! Me pego frustrada, sorumbática, me critico, fico mal, quando na verdade, não sou eu, sou eu refém deles. Por isso, às vezes quando olho no espelho..., não sou eu..., é o outro de mim que me olha.

Deus, terei cura?

segunda-feira, abril 26, 2010

Dores passadas

Neste tempo sem hora,
O discurso não tem palavras,
A carcaça oca me espreita e acusa,
cobrando definições,

um coração confuso se aperta,
sou tragada pelo buraco solo metrô,

o inferno me espera,
não quente,
mas frio e escuro.

em um canto me escondo,
remexendo o baú,
em busca de lembranças, sonhos,

minhas mãos cheias,
carregam os cacos achados no caminho,

as mãos estão ocupadas,
o coração furado,

a cabeça...
cadê a cabeça que estava aqui?

o gato comeu.

Tempo

Presos…
em nós mesmos,

dos limites,
grades imaginárias,

a espera da sentença,
a ser julgada,

talvez o tempo absolva,
talvez o tempo condene,

que ironia,

o tempo,

o algoz,

a zombar de nós,
nos roubando o tempo,

presos, esperamos,
presos, ficamos,

nada fazemos,

e o tempo voa.

domingo, abril 25, 2010

Metrô

Rostos passam,
luzes se vão,
riscando o escuro de um túnel infinito,

só eu fico, ou talvez, só eu vá,
e todo resto fique,

mero ponto de referência,
nesse fim de noite,
que de nada me serve,
para compreender as agruras do dia,

rostos cansados, impacientes de mais um dia,
olhares distantes, em que pensam?

no fim da estação,
no fim do dia,
no fim da vida...

só eu penso em terminar esse poema.

Dor de existir

Algumas vezes,
surge repentina,
vai rasgando,
abrindo caminho e explode,
surge do nada,
ou, talvez,
eu não queira saber,

me perturba, e então eu me escondo,

cresce, toma espaço e me ganha,
se faz presente e zomba de mim,

maldita dor,
desconhecida,
corta e faz chorar,
provoca tristeza profunda,
angústia que aperta o peito...

são tantos caminhos que às vezes me perco,
e, meu Deus,
é tão difícil encontrar,

solidão que sufoca,
tristeza sem fim,

porta fechada de um quarto escuro,

e o choro que se ouve é o meu,
perdido, em anos de desencontros.
(12/96)

segunda-feira, abril 19, 2010

Partida

Meus silêncios não dizem nada,
Talvez uma acusação muda, velada
De uma manhã,
onde o sol brilhava na parede de bom dia,
as plantas no jardim só existiam,
e eu feliz ao teu canto,
sem saber o que nos aguardava,
de sua viagem repentina,
para outras paragens,
outras manhãs,

agora, só o sol brilha.

domingo, abril 18, 2010

Caminhar

quando me olha
não sou eu
o que você vê

sou o seu reflexo, no espelho
eu não existo.

quando me ouve
não são minhas palavras

a pessoa que acorda
banha-se e vai embora
não sou eu

a refém de todas as horas
tampouco

em meio às ruas, os carros
às arvores estou

sem rosto e sem forma

estou além, lá,
acolá, embaixo
em cima, dentro e fora

a sombra na pedra sou eu
a teia que teima
no orvalho a flor
a brisa que leva o barco
a neblina que encobre a serra

sou o detalhe
a erva que nasce no jardim esquecido
a tarde que cai

busquei na memória encontros
no entanto
são meus passos que ouço no caminho

o atravessar da ponte é lento
como essas águas
olhadas da margem do rio.

não me espere pro jantar...

domingo, abril 04, 2010

Medo

Fiz uma enquete aqui no blog e perguntei sobre os medos nossos, não os de cada dia, mas, os da existência, aqueles que nos atormentam a alma. Do que você tem medo? Do que você tem mais medo? Da morte, da solidão ou da infelicidade? Uma minoria disse medo da morte e a outra parte se dividiu entre a solidão e a infelicidade. Assim, a morte perde de longe. Interessante, poderíamos dizer que o maior medo de todos seria a morte, a certeza da finitude, e por ser algo que nos escapa e não termos controle algum, temeríamos.

O que foge a nossa compreensão, tememos. O que foge a nossa construção, tememos. Temos medo de falhar, como também do sucesso, temos medo da solidão, mas também de relacionamentos, temos meda da morte, mas também do viver. O medo da morte paralisa para a vida. Mas o medo da vida, o não fazer, eterniza a morte a cada instante.

A enquete mostrou que os maiores medos são solidão e infelicidade. Mas, qual o medo da solidão? De que solidão estamos falando? Da condição de quem vive só ou da solidão da alma?
E, infelicidade? Condição de nunca estar alegre, contente, feliz? É possível? Podemos e temos todo o direito de nos permitir ficar tristes, mas para que insistirmos em uma condição que não nos é favorável? Se pensarmos um pouco, veremos que temos medo das condições que criamos. Solidão é uma condição que não é alheia ao nosso desejo. Somos responsáveis por tudo que nos acontece, sendo assim, tememos nossos próprios desejos, ou o pior, nossa incapacidade de mudar uma condição criada por nós.

sábado, abril 03, 2010

A morte é estúpida

Não entendo a morte, desculpem-me todos. A morte é para nos mostrar a finitude da vida? Aprender a dar valor às pessoas? Resolver o problema de densidade humana?

Morreu Marcio, morreu Salomão e o menino azul, e eu..., que morro um pouco, a cada morte que se abate sobre mim.

sexta-feira, abril 02, 2010

Epitáfio

O sol se põe na flor,
a tarde se põe no jardim,
e o dia, se põe em mim...

O Thomaz, meu filho aos 6 anos fez um desenho e escreveu " o sol se põe na flor". Terminei o poema com as outras duas frases, e quando li, ele me olhou sério e disse - mamãe é isso que vou colocar na sua lápide quando você morrer. Chorei horrores, um amigo tentou me consolar. Pra quê? eu já sabia o que estaria escrito na minha lápide.

quinta-feira, abril 01, 2010

Eu sou

Há momentos que sinto o amor tão forte, mas tão forte, que amo tudo, as árvores, o poste, a brisa, a pedra. Me enlevo com a simples sombra, com o tremular da folha, com o inseto que voa. Busco os detalhes a minha volta e suspiro. Nesses momentos uma felicidade imensa me invade, felicidade de vida, de comunhão. Fico leve que nem nuvem, tão leve que suspiro fundo o céu. Clarice disse que nesses momentos sentia um sentimento maternal por Deus, mas este nunca senti. Tenho sim, um sentimento maternal pela vida, me sinto meio mãe da terra, do planeta, com todas as obrigações de mãe, acalentar, alimentar, proteger. Sou tão mãe que me acalmo, a paz da serenidade materna. Nesse momento tão único, completo e breve, eu vejo, percebo, perdôo, pertenço e entendo. Nesse momento “Eu Sou”.

terça-feira, março 30, 2010

Conto inacabado - Tentativa II - body talk II

Cristina, numa ausência de boas maneiras, ignorou completamente o resto do corpo do homem largado a seu lado e focou toda sua atenção em seu braço. Algumas vezes pendia a cabeça para um lado, ora para o outro, mordia o canto esquerdo do labio inferior, levantava o sombrolho, como se num esforço múltiplo de um dificil proceso de entendimento. Acompanhando esses trejeitos, um dedilhar repetitivo de uma canção cega.

A conversa deveria estar muito interessante, pensou André, a moça numa concentração só, era toda ouvidos para seu corpo aparentemente falante.
_ E aí? Não aguentando mais de curiosidade, André interrompeu aquele silencio milenar mal educado, dando mostras do desagrado de quem havia sido deixado de fora.
_ Afinal, qual o diagnóstico? O que o meu corpo tem tanto a dizer de uma simples dor no joelho? O tempo que vocês conversaram lembra o reencontro entre velhos amigos, falaram de quê? Politica, cultura?

Cristina, já costumada, deu novamente um daqueles sorrisos de monalisa.
_ Calma, André, vou te falar tudo, assim que terminar.
Cristina terminou, olhou e profetizou - Medo. Simplesmente uma única palavra para mil anos de conversa. Definitivamente, a mulher tinha o poder da sintese.
_ Como é? É dor, e no joelho! Que tipo de fisioterapeuta, osteopata ou sei lá o que vem a ser você é? Diz André em uma voz meio alterada, meio amendrontada, do tipo sem querer ser rude, mas receando ter sido covardemente apanhado.
_ Desculpe-me, talvez devessemos nos apresentar novamente. E, como se tivessem acabado de se conhecer Cristina estende a mão e diz - Prazer, me chamo Cristina, sou amiga do Carlos, trabalho com crianças em uma creche e nas horas vagas me dedico a terapias alternativas de cura. Tenho 38 anos, sou casada e tenho um filho. Prometo que não mordo, não fugi de um hospicio e nem fui abduzida por alieniginas.
André, entre atônito e algum outro sentimento que nao consegue nomear estende a mão, talvez com um ligeiro pesar por saber que a estranha bonita moça era casada. Sempre tivera um fraco pelas estranhas, engraçadas ou talvez originais, não importa, estava divagando ainda segurando a mão da moça.
_ Prazer, diz sem entender nada.
Cristina levanta da cama e anda pelo quarto, como se ensaiando o que iria dizer.

_ André - começa a falar bem calma e pausadamente - a dor no seu joelho está de alguma forma conectada a um sentimento de medo. As emoções ficam impressas em nosso corpo, como se fosse um linotipo. Na verdade, somos como um livro e toda nossa vida está escrita nele. Todos os eventos, medos, mesmo os mais tolos, todas as estórias, estão armazenadas no que chamamos memória celular. Algumas vezes, um evento funciona como se fosse uma chave, a porta se abre e libera o que estava trancado, transformando a emoção passada em memória ativa, no seu caso, o seu aniversário.
- A principio, é meio óbvio, não? aniversário, medo do futuro, medo da vida, medo de se apaixonar... – disse a frase como em um decrescendo musical, a última parte quase de forma inaudivel. Mesmo assim, continuou ela a elucidar o mistério, o seu mistério e a fazer conexões onde a principio só existia a dor de um joelho desarticulado. O discurso vindo de fora feria, verdade mais contundente, feito faca que corta e deixa exposta a ferida.

André, neste instante, como se atingido por um raio deu-se conta que a moça realmente havia falado com seu corpo, e o pior, este o havia entregado da forma mais baixa possível, sem censura. Ficou constrangido, como paciente em maca de consultório aguardando o médico. Havia ficado nú, suas emoções mais caras, pensamentos mais intimos ali expostos, sentiu-se indefeso.

Cristina o chama suavemente - André?
Este a olha num desamparo doído de folha manchada, recem escrita, com tinta fresca. Que outras verdades o aguardavam? Desviou o olhar, buscou apoio no quadro de natureza morta, no arranjo de flores secas e na pequena mancha esquecida da cortina. Apoio negado.
Só, viu-se frente a frente com seus 55 anos e todos os seus medos, conectados a todas suas emoções, aparentemente desarticuladas “...Tempo passado e tempo futuro..., ...que convergem sempre para o tempo presente”.

_ André?
_Sim, responde como se de repente tivesse todas as respostas.
_ Seu corpo pede que você diga pra você mesmo que é seguro se apaixonar. Você consegue, completa Cristina.
André olha para a Cristina e sorri, sorriso de quem compreendeu a mensagem.
Entre o sorriso e um breve momento de cumplicidade, alguém entra e leva Cristina embora. Esta, vai-se com o vento, o mesmo que se incumbe de fechar a porta.

Conto inacabado - Tentativa II - body talk

Cristina prosseguiu em sua inspeção com um sorriso tranquilo no rosto, o tipo de sorriso que é dado a animaizinhos e crianças feridas. Não queria assustá-lo. Internamente, estava rindo da situação. Sempre se divertia com aquele ar de desconfiança do outro, de alguem que perdeu a informação não dada e, o principal, dúvidas sobre sua sanidade. Balançou a cabeça, afastou a distração e voltou a concentrar-se no moço, pobre coitado, estava realmente com dor.

- Você quer ficar melhor ou não? É sua escolha?

André abriu os olhos e considerou. Momentaneamente os havia fechado, como a perceber o que seu corpo poderia estar falando para aquela moça, na verdade, o que poderia estar falando de toda a situação. Seu corpo fala? Já havia lido e ouvido alguma coisa a respeito, mas nunca parou seriamente para pensar no assunto. Pensando agora, gostaria de saber o que poderia ter sido efetivamente dito. Seu corpo teria falado sobre a solidao que lhe varria a alma, seus 55 anos recem completados, seus casos fortuitos. Não. Seu corpo era mudo, pelo menos para ele.
- E aí? Cristina agora, estava olhando diretamente para ele como se aguardasse a resposta, não mais o mero reflexo muscular do corpo, mas um pronunciamento verbal, articulado.
Inicialmente, André se sentiu meio desconfortavel com o olhar insistente da moça bonita e com o contato estranho e intimo daqueles dedos inquisidores a segurar seu pulso. No entanto, em algum lugar entre o canto esquerdo da boca da moça e a dor que lhe consumia o joelho perdeu-se, resolveu relaxar e se entregou.
_ O que preciso fazer? Inspirou, foi buscar lá dentro a respiração, como se o trabalho de se entregar fosse deveras pesado.
_ Nada. Disse de forma enfática Cristina. _ simplesmente fique deitado de forma mais relaxada possivel e confie em mim, essa técnica é muito simples, seu corpo diz o que está errado e o que precisa ser feito para se restabelecer o equilibrio, sou uma mera facilitadora.
Andre assentiu silenciosamente, reclinou e esperou. Cristina sentou-se ao seu lado na cama e voltou a pegar seu braço. Deu um breve sorriso.
_ O que é? Perguntou André, curioso, ante a possibilidade de ficar de fora de uma piada entre a mulher e seu próprio corpo.
_ Nada, é que seu corpo, embora não me conheça, me deu permissão para trabalhar, diferentemente de você, ele confiou em mim, de cara.
André, nada disse, não compartilhando da piada, continou mudo, esperando que seu corpo, também, assim o fizesse. Na esperança muda da mulher terminar, sabe se lá o que estava fazendo, e então ir embora, e ser deixado a sós com sua solidão e seu joelho.

Estudos sobre a Probabilidade de uma noite fria e chuvosa

Sibila o vento na janela,
recordações,
Laurence Olivier fechando a
porteira...
A chuva cai, como se a noite estivesse triste.

Estou deveras piegas.

Passam carros sob o viaduto,
luzes longe se apagam.
E eu, aqui, c/ o Meyers e a Probabilidade,
A noite é o espaço amostral,
será ou não, infinita não enumerável,
chuva e lua não são eventos excludentes,
e eu, que evento serei...

faz frio.

sexta-feira, março 26, 2010

Manhã na praça

Sentou-se à praça como quem não quer nada, como se não houvesse nada a fazer, nem filhos, nem marido ou trabalho. O doce sabor da rebeldia. Estava uma manhã agradável, dessas que convidam a celebrar a vida. Uma decisão acertada.

Nada premeditado, simplesmente aconteceu. Quando subiu as escadas do metrô e foi surpreendida pelo azul do céu, se deixou guiar pelas ruas como quem admira de forma displicente os passantes, as vitrines, a arquitetura dos prédios, os pombos nas igrejas. Inspirou o ar puro da manhã, era turista em sua própria cidade! Nunca havia sido turista em lugar algum, desconhecia tal sensação.

Continuou caminhando até chegar a uma praça. Praça, como tantas outras, de outras ruas, de outros dias, de ontem, mas hoje, embora simplesmente uma praça, era a sua praça. Escolheu cuidadosamente onde sentar, como se o lugar definisse o destino do dia. Sentar ao sol, embaixo da árvore, perto do homem,..., norte, sul, leste, oeste..., nunca fora boa em geografia... Onde sentar..., virou-se, caminhou e sentou-se. Boa escolha, sentar ao sol.

No entanto, ficou nervosa, não sabia o que fazer, como sentir o sol, onde colocar as mãos. Era tão simples, simplesmente ser e estar e deixar acontecer. Tinha que aprender a ser mais espontânea. Tanta coisa a aprender e tantas decisões a tomar, 38 anos. Marido, filho, trabalho.

Estava realmente nervosa, não conseguia decifrar o sentimento. Remetia a algo passado, quando jovem e se preparava para um primeiro encontro. O medo de encontrar o desconhecido, ficar cara a cara com a surpresa do novo, ser desvendada e desvendar. Havia um certo estresse, era como se fosse aguardada, esperada de forma ansiosa por alguém. Cristina, sentada no banco, perdida de si, perdida da vida, ainda não havia se dado conta, de que o encontro, era com ela mesma. Um encontro muito aguardado e sempre adiado.

Remexeu a bolsa, procurando algo, tentando dissimular o crime cometido, o furto de uma manhã de trabalho. Tentou conter a culpa, se lembrou de praticar o exercício que a terapeuta havia ensinado. Respirar, 20 vezes, quatro de forma rápida e curta e uma profunda e longa. Começou, inspirou e expirou, perdeu as curtas, as longas e as contas. Recomeçou e abandonou o exercício. Achava aquilo um saco, sempre perdia a conta e sempre mentia para a terapeuta que estava praticando religiosamente. Divertia-se com a terapeuta, pregando pequeninas mentiras ingênuas sem grandes efeitos, feito menina sapeca.

Estava mais calma, ponderou se era resultado do exercício. Talvez funcionasse mesmo. Inspirou profundamente e, largou o corpo. Bem melhor. Estirou o pescoço para trás, deixou a cabeça pender de forma lânguida sobre o encosto do banco e se ofereceu sem pudor ao sol. Recebeu em troca um cálido beijo de amante novo. Os cabelos deslizaram desnudando a face. Era bonita. Há quanto tempo não percebia o calor do sol na pele, hhumm... como era gostoso. Pensou em sexo, há quanto tempo não tinha um orgasmo, pensamento furtivo, tentou se lembrar de cabeça, recorreu aos dedos, deixou pra lá. 38 anos. Olhou a volta receosa, como se alguém pudesse ler seus pensamentos mais íntimos, ora, pensamentos são sempre íntimos, ou não?

segunda-feira, março 22, 2010

Abandono

Por favor, vai
Me toma,
Me toma de mim,
Me leva,
Que eu não me importo,

Quero ir,
Visitar terras distantes,
Outros mundos,
Sentimentos,

Toma minha alma,
leva, vai

Neste momento,
Sou somente abandono,
Abandono de mim,
Abandono de desejos outros,

Aqui, agora,
te ofereço meu abandono,
pegue,
é um presente,
cuide dele que é seu.

meu abandono,
é doce, leve
sem culpas,
pesos ou cobranças,
é só um abandono, do momento.

segunda-feira, março 15, 2010

Não estava no roteiro

Por que teimamos em querer dar nomes, etiquetar pessoas e coisas, sentimentos e relações? Tornamos nosso querer imprescindível e passamos a classificar e catalogar tudo e todos. Esse comportamento meio compulsivo me remete ao personagem caricato de Chaplin em Tempos Modernos, só que ao invés de uma chave inglesa teríamos nas mãos um etiquetador. Imagine você travestido de Chaplin com um etiquetador nas mãos etiquetando tudo e todos. É engraçado como filme mudo, mas triste como vida.

Temos que etiquetar e seguir roteiros. Por que nos sentimos mais confortáveis quando achamos que todos estão representando seus papéis pré-definidos dentro da trama? Não há garantia alguma que o roteiro vá ser seguido até o fim, a qualquer hora pode haver troca de papéis ou então terminar a história. Sendo assim, qual a importância de se ter um roteiro? Por que não deixar fluir a trama a partir da interação de cada um? As pessoas preferem lidar com um pseudo roteiro e acreditar na validade deste a terem que lidar com algo desconhecido, novo, que pressupõe certo exercício.

Exercício aqui de se reinventar e se descobrir em outros papeis. Nesse exercício correm-se riscos, riscos de se ousar outras leituras, outras emoções. No entanto, somos limitados pelo medo. Mas, que medo é esse que nos assola e enrijece e nos faz incorporar atitudes tão nocivas a nossa felicidade? Corremos o risco aqui de sermos aqueles velhos atores que desempenham sempre os mesmos papéis, dentro dos mesmos tipos de filme.

O problema é que, com tudo isso, criamos tanta, mas tanta expectativa que interrompemos ou bloqueamos qualquer possibilidade de evolução de uma manifestação espontânea. Esta se perde. Tudo em nome de um pseudo conforto. Questionei isto com uma amiga que me respondeu que não temos como fugir de nossa complexa natureza humana e que isto pressupõe um certo grau de maturidade espiritual, meio distante de nós seres ainda primitivos. Pode ser...

Mas, mesmo com minha complexidade humana e longe de atingir essa maturidade toda, ando ansiando, ando ansiando muito, uma certa liberdade, liberdade de ser, simplesmente ser, sem me preocupar com o roteiro ou com expectativas acerca de meu papel.

sábado, março 13, 2010

Parabéns Thomaz!

Em homenagem ao meu filho que fará amanhã 9 anos, coloco aqui o poema que escrevi quando soube que estava grávida dele. Parabéns Thomaz, que você carregue esse olhar ávido, pura curiosidade de vida e coisas, por todo seu caminho. Te amo!

Grávida,
de vida,
da terra,
do vento,
do momento,
me inflo e alço vôo,
me misturo aos pássaros,
alcanço a lua
abro os braços e grito,

sou mulher!!!

mulher prenha,
de vida,
de êxtase,
de luz.

Quando dei por mim estava assim,
Feito planeta terra,
Redonda,
Grávida de seres,
animais, plantas,
feito a lua cheia,
grávida de são Jorge e o dragão,

Quando dei por mim estava assim,
feito mulher,
que dá vida,
que se descobre
feliz, contente,
em meio aos desconfortos matinais,

Quando dei por mim estava assim,
anotando o primeiro chute,
chorando de algo bobo,
construindo sonhos,
falando com a própria barriga,

bebê,
que você seja bem vindo!

sexta-feira, março 12, 2010

Divagações matinais

Você aceita os conceitos como lhe apresentam ou você os questiona? Me vejo, eventualmente, com algumas questões bem interessantes, quero dizer, para mim pelo menos... com toda certeza essas questões já foram amplamente discutidas, estudadas, talvez já postuladas como axiomas. Mas, mesmo assim, quando elas chegam é como seu tivesse descoberto a pólvora, não "a pólvora", mas a minha pólvora. Foi assim com a criação de Deus, com o tempo presente, o questionamento do ser, a espiral da vida... Nesses momentos parece que fui atingida por um tijolo e a luz se faz. Tudo bem, alguns podem dizer que é óbvio, mas pra mim até aquele momento era só escuridão.

Minha última questão ocorreu no meio de um seminário, no momento em que todos iam discutindo questões complexas. Você já parou pra pensar e perguntar de onde vêm os pensamentos? Como se formam? De onde vem o desejo de pensar? Como se dá a máquina fazedora de pensamentos? A idéia quando chega pressupõe a possibilidade de ter havido um espaço onde estas foram concebidas, formuladas e estruturadas. O pensar pressupõe uma ação prévia de articular, estruturar o pensamento. Em que lugar se dá essa estruturação? Como é feita essa estruturação? Parece inconcebível que um conceito, uma idéia já saia pronta sem antes ter sido elaborada em algum lugar. É como se houvesse um pré cérebro, anterior à mente onde os pensamentos são formulados. Interessante, não?

Então, se não sabemos que lugar é esse podemos dizer que nosso ato de pensar pressupõe um ato continuo de autoconstrução. Assim, se há um comando de construção de pensamentos, pode também haver um comando do não pensar. Se penso logo existo, o ato de não pensar me leva a uma não existência... Talvez, um estado somente de percepção, como na meditação...

Precisamos aprofundar os estudos, por enquanto estão muito rasos, até aqui só levei a tijolada, a luz parece ainda estar longe.

segunda-feira, março 08, 2010

caminho novo

Andar,
Venho andando há tempos...
a esmo, sem bússolas,
Chegar,
contratempo de percurso,
desvios e atalhos,

no caminho,
em meio às buscas,
fui eu a encontrada,

garota perdida que bate à porta,

mundo novo que se apresenta,
desconhecido,
carinhos, desejos e medos,

o gato de Alice,
alianças aladas, desaniversarios vários,
venha, comer um pedaço de bolo,
vamos comemorar a vida,
o novo, inusitado,
o insólito,
que se apresenta,

um basta nas falas,
roteiros escritos,
personagens aguardados,
andemos, inventemos,
subverter toda ordem
pretendida,

caminho que se ascende,
de mãos dadas,

medo que se olha no olho
não é mais medo.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Céu azul e cabelos ao vento

Algumas vezes não sabemos a razão que nos leva a tomar determinada decisão, talvez, seja simplesmente a resposta rápida a algum tipo de angústia não identificada. Racionalmente não haveria espaço nem lugar para tal decisão, mas ela vem surgindo como um movimento sutil e quando você se dá conta, a ação já tomou lugar. Aprendi com um amigo sábio, que se há algum desconforto na alma, a origem deste desconforto deve ser removida o mais rápido possível, pelo bem de nossa paz de espírito, óbvio, e de toda nossa existência.

Algumas vezes quando tento me dar conta da justificativa lógica para fundamentar determinada decisão, uma coisa engraçada acontece, a resposta não me vem como uma idéia construída de forma elaborada, escrita. A resposta toma forma de uma imagem, muita forte, vem como uma cena de um filme que se repete ao longo do dia, inclusive com regras de enquadramento e luz. Essa é a única resposta que eu tenho.

Pois bem, recentemente uma imagem me persegue, na verdade, uma cena. Um carro em alta velocidade, um conversível antigo, claro, contra um céu azul, uma mulher ao volante, feliz, tranqüila, cabelos curtos e louros ao vento. A imagem é vista de baixo e parcialmente de trás, como se a câmara tivesse na altura da roda, na lateral esquerda, visualizamos parte do perfil da mulher. Determinada em seguir a diante, mas sem arrogância ou rigidez, serena com o vento, ela segue. A sensação é de liberdade, de correr ao encontro da vida. Liberdade suprema do existir. O vento refresca a alma, o sentir. Não há prisão, não há correntes, não há elos, pendências... Vida livre que curte a tarde, ou manhã de abril ou maio de céu azul, uma temperatura agradável que alegra e faz querer suspirar. “We are on a road to nowhere...”, toca a musica na rádio mental, trazendo lembranças de ontem... Talvez uma tarde de verão nas estradas das montanhas rochosas, contra o mesmo céu azul e a mesma temperatura agradável.

A música, trilha sonora da imagem, trilha to nowhere, momento to nowhere. O que importa é o tempo presente, momento vivido aqui e agora. O amanhã não existe, já dizia o poeta, bem como meu filho, do alto de seus 5 anos. Sim, o amanhã não existe. Lembremos, existe somente uma seqüência de hojes. Estamos presos na armadilha do tempo, sempre o tempo presente. Tempo passado e futuro contido no tempo presente, irremediável tempo infinito, sem saída para nenhum outro tempo, sem fim. O tempo presente não tem fim, é irremediável, infinito nele mesmo. Podemos variar de lugar, cores, roupas, sensações, mas o tempo presente é o mesmo.

Assim, deixemos a divagação e voltemos à mulher. Como se chama? Vai a algum lugar? Foge de alguma coisa, alguém? Ou é simplesmente uma mulher, a dirigir um carro, como sua própria vida, segura de seus caminhos, resoluta. O cenário se repete como uma imagem em looping, não há figurantes, cenário alternativos, árvores, pedras, pássaros. Somente o carro, a mulher, o céu azul, a estrada e os cabelos, ao vento. A velocidade aumenta a sensação de liberdade e o sentimento de poder, é um quase voar. Voar no tempo presente.

Corta a cena. Voltemos ao hoje, o aqui e agora, não mais o nowhere, mas o now here. (insight de um amigo)

Não me perguntes aonde vou,
o que sentirei amanhã,
se serei gorda ou magra,
o que vestirei ou comerei,
Certezas?
Poucas.
Meu nome, gênero e naturalidade.
Certezas pesam e não quero bagagem,
decidi viajar leve,
levar somente os desejos do momento,
o sim do agora,
o querer do aqui.
Planos? Sim, vários...
Com orientações e mapas,
Todos flexíveis!
A rota é alterada sempre que for necessária.
Felicidade do momento presente.