domingo, novembro 27, 2011

Magia


Havia sentido sua presença, como uma corça sente instintivamente o predador. Seu hálito quente desmentia sutilezas e insinuava a rendição inercial dos sentidos. Desejava-lhe de forma errante, sem a precisão das latitudes ou longitudes entre sombras e ténues luzes, buscava o contorno do prazer etéreo, a resposta ainda não dita, a simplicidade física de espasmos gerados no avesso, reflexo instantâneo de pensamentos aleatórios carregados de sussurros inaudíveis, imaginados no esboço do traço que persiste em carícias silenciosas...

domingo, novembro 20, 2011

Liquefação dos sentidos


Naquela manhã especialmente acordara diferente, ao invés de espiar a vida pela janela, pulou da cama e correu ao espelho, urgência em saber-se sólida. Durante a noite havia sonhado que era líquida, mulher líquido, assim queria o contato da retina pra certificar uma solidez cristalizada em reflexo. Acendeu a luz, uma imagem suave e simpática aconchegou-lhe um bom dia, trocaram caricias gentis entre alguns pedidos de desculpas e juras de amor eterno. Mais tranquila, caminhou lentamente até a janela agradecendo em silêncio a luz do sol que incidia sobre seu corpo e certificava sua existência, contudo não havia percebido que aos seus pés, gotas denunciavam um provável degelo.

segunda-feira, novembro 14, 2011

Entre o céu e a terra habitam as incertezas



Havia inscrito-o sob a pele em uma operação meticulosa de ato cirúrgico e um quase haraquiri, desconhecia do amálgama resultante qual parte lhe cabia e qual parte era presente.  Embora, soubesse desde o inicio que não havia como sair incólume do ato de observar a própria experiência.



terça-feira, novembro 08, 2011

Mula, uma árvore e rosas - personagens secundários


[          Trazia na algibeira, fumo, uma garrafa de pinga e uma foto esmaecida de sua mãe quando mocinha. O sol queimava-lhe a pele, os miolos não, porque o chapéu velho protegia. Olhou pra longe e deu uma preguiça miserável de cavalgar até onde a vista alcançava. Sentiu saudade da infância onde o mais longe que se via era o curral e o vulto negro das vacas. Agora estava ali, fadado que nem alma penada a comer poeira debaixo de um sol escaldante. Reviu a mulher desdentada que sem perguntar havia previsto que morreria sozinho num lugar distante. Longe estava e bem distante por sinal, só restava agora morrer, pensou em um rasgo de humor negro. Cuspiu o fumo, olhou o céu e ponderou que a morte naquele instante parecia um cenário bem mais agradável que o visto de cima do lombo daquela mula velha. ]

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[          Cafés fumegantes, bocas e um sorriso vermelho, a árvore cúmplice tudo ouvia. Sentiu-se incomodado com as folhas tremulantes que pareciam rir de suas palavras trôpegas. Olhou nervoso, buscando outro sitio para sentar, sem saber como explicar que fugia de uma árvore intrusa que ouvia seus segredos. Ah, além de ridículo percebeu-se também louco, e ali, bem ali, entre a árvore e os dentes, se deu conta de que a vida, na verdade, era uma encenação boba de uma peça qualquer de algum autor entediado. ]

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[           Releu mais uma vez a carta, promessas de amor eterno, amassou entre os dedos e os seios, suspirando um desejo morno. Escondeu a missiva entre as partes pudendas, gostava assim de carregá-lo rente ao corpo, insinuando um pecado histórico. Suspirou novamente, arrumou o cabelo e resoluta foi preparar o chá, de Rosas Brancas, pra combinar com sua tão preciosa castidade. ]

sábado, novembro 05, 2011


entre a flor e a calçada, uma nudez pálida 
de pedra lavada em gotas de chuva
revela segredos sutis da madrugada

sexta-feira, novembro 04, 2011

Valquíria


Toco-lhe entre concreta e fugidia, não correndo o risco de ver me presa, escapo ao tato, o espinho da rosa fere, assim como minhas palavras, não queira beijar-me, morrerás sedento, e eu a correr mundo, alada como uma Valquíria, escolhendo os eleitos. Crês em vida eterna, então não venhas a mim.