domingo, outubro 23, 2011

Tardes

Acalento lembranças
como também sombras 
que o sol projeta na parede
há amores trancados em mim 
esperando somente 
a troca de guardas 
para fugir madrugada à fora


Insisto em ruminar medos 
e como mosaico
me quedo em partes 
à espera da brisa da tarde
que como amiga velha 
vem aquecer os ossos 
com uma xícara de chá 
dedos de prosa

sexta-feira, outubro 21, 2011

Cursed

Cada palavra era como beijo suave, adejar de borboleta pós chuva fresca em manhãs primaveris.

Buscava-a, como quem busca furtivo uma droga, se esgueirava sorrateiro atrás de sombras e, talvez, uma culpa. Resistia à possibilidade de tê-la perdido, embora nunca a tivesse. No entanto, guardava um segredo, entre poesias, vinhos e desejos, vislumbrara sua alma nua, e agora, a mantinha aprisionada em lembranças, essas que voltavam intermitentes para assombrá-lo.


E, como em um pacto, foram ambos amaldiçoados, por palavras e lembranças, a se buscarem...

quarta-feira, outubro 19, 2011

Intermezzo

Enquanto olhava-o nos olhos desabotoou silenciosamente o último botão da blusa. Não usava soutien, talvez em um ato tardio de rebeldia, tampouco usava pérolas ou qualquer outro adorno. Prendia-o com o olhar, muita mais que sua nudez opaca. Foi até à bolsa e acendeu de forma ausente um cigarro, tragou, esperou, e, por último soprou a fumaça na chama pra ver o efeito de vê-la avivar. Prazer. Fogo, cor vermelho sangue. Caminhou até à janela, parou e contemplou o vazio do longe. Nada havia a ser dito e, no entanto, tudo a conversar.
- Sinto sua falta - Informou de forma lacônica, como quem dita uma carta. Me chame de louca, talvez eu seja, mas mesmo assim, ainda sinto sua falta.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Desculpas

Algumas vezes, a única coisa que nos resta é um singelo pedido de desculpas, nada mais. Nenhuma outra palavra ou justificativa que possa dar conta de um ato total de inabilidade em lidar com o sentimento alheio.

Assim, estou sendo corroída pela culpa, culpa por transitar sem carteira de habilitação por estradas desconhecidas, culpa por atropelar sentimentos e esfacelar fantasias.

Assim, somente me resta, pedir desculpas.

terça-feira, outubro 11, 2011

Dia não genérico

De cama, a observar o mundo, meu ciático deu o ar da graça, e estou assim, meio torta, não muito diferente do meu estado natural, um ser meio torto.

Pois bem, estou aqui a contemplar, da minha cama admiro meu pequeno jardim de suculentas e as montanhas ao fundo em meio às nuvens, como num quadro de Turner. E, o vento, que vem a cada hora perguntar como estou.

É interessante, simplesmente, contemplar e ao mesmo tempo se deixar admirar de que fazemos parte.


sábado, outubro 08, 2011

Bom dia

Esta postagem é somente pra te dizer "Bom dia"!

Seja bem vindo, leia, sinta, passeie pelos versos!

A manhã lhe dá bom dia, as flores lhe dão bom dia, as árvores, o sol, deixe a energia do dia te envolver, se entregue!

Beijo grande

domingo, outubro 02, 2011

Nós seres comedores *


Quem me conhece acompanha minha luta, batalha interna em me tornar um ser mais evoluído, integrado à natureza, e, por conseguinte, vegetariano. Há uns 9 anos que vivo entre estar vegetariano e onívoro. Um amigo disse que eu não era vegetariana e sim estava. Ele estava certo, nesses nove anos nunca fui totalmente vegetariana.

Tudo começou na gravidez, fui fazer yoga e tive oportunidade de conviver com seres mais evoluídos, que se preocupam com o planeta, energias e seres vivos não comestíveis. Sou uma pessoa altamente influenciável, ainda bem, na adolescência minha mãe vivia me dizendo para olhar as companhias, e eu morria de medo das más companhias que comiam criancinhas. Assim, passei incólume pela adolescência sem comer criancinha alguma.

Pois bem, nesse grupo comecei a ter preocupações com alimentação, arroz cateto, feijão azuki, algas, pastas de soja, pão sem glúten, clorofila, e por aí vai. Sou extremista do tipo radical, quando mergulho, mergulho fundo, não dou vôos rasantes. E assim, fiquei mais radical dos mais radicais, parecia que tinha nascido vegetariana. Tudo piorou quando influenciada por um amigo, comecei a querer me alimentar com comida crua, esse então comia pão assado no calor do sol. E, o interessante é que uma viagem leva a outra viagem e a outra, sempre com companheiros de viagem mais interessantes, que contribuem para encher nossa maleta de viagem cada vez mais com esquisitices. Dessas minhas viagens comecei a beber água com argila que é excelente, carvão vegetal em pó, clorofila, suco verde, suco vivo, babosa, erva de passarinho etc.

Recentemente, não tão recentemente, desde que me separei, há uns 4 anos venho tentando manter a alimentação mais saudável e não comer seres vivos com mobilidade.(Segundo um amigo, ele é carnívoro porque é contra comer seres imóveis, os vegetais nada podem fazer para fugir a nossa caçada). Mas, digo que é difícil, fico sempre na linha tênue em ser mais evoluída e me levar pelos anseios primitivos da carne. Assim, venho alternando períodos evoluídos com períodos de barbárie (desculpem-me, seres comedores de carne), mas é assim que me sinto.

Toda vez que acho que estou caindo em tentação entro naqueles sites vegetarianos que mostram porquinhos, vaquinhas, pintinhos com as estórias mais tristes de meus amiguinhos e eu choro horrores (meus filhos já até sabem e perguntam - mãe vc esta vendo a vitela de novo?). Depois, saio renovada e fico ainda mais determinada a não me deixar levar pelos meus instintos de predadora. Visitar esses sites aplaca minha fome de carne, mas da última vez não adiantou muito.

A primeira vez que sucumbi, eu já estava há um bom tempo sem comer carne e vivia sonhando com bacon, presuntos e costelas. Verdade, tinha um sonho que era recorrente, uma festa romana com bailarinas em roupas esvoaçantes dançando com pernis assados em bandejas. Não me pergunte o porquê das bailarinas, nem eu nem a analista decodificamos o sonho. Nessa época eu tive uma gastroenterite braba, quase morri (sou exagerada) fiquei três dias comendo papa de arroz sem tempero e óleo algum. No terceiro dia, tonta de fome fui ao supermercado comprar alimentos, e sem me dar conta me peguei parada em frente à seção de frios, fiquei namorando todos aqueles pastramis, presuntos, parmas e mortadelas. Não agüentei muito tempo, comprei meio quilo de alguma coisa vermelha, cheirosa e saborosa, não esperei nem chegar em casa, comi uns 3 sanduíches no estacionamento. No dia seguinte comi feijoada e no terceiro dia, um joelho de porco em um maravilhoso restaurante alemão. E o pior, é que não senti nada, nenhum mal estar, absolutamente, nada, nada que pudesse dar forma ou cor a uma possível culpa de comer meus irmãozinhos.

Os amigos deliram de felicidade quando você cai em tentação, é como se você tivesse uma doença grave, e, de repente, estivesse livre da morte. Não entendo.

A carne de vaca eu não como ate hoje, mas, de carne branca passei a comer carne bege, mais recentemente rosa e laranja. Já me percebi relativizando e reclassificando, o camarão é quase um vegetal, poderia ser uma planta, a lagosta também não conta, o peixe é peixe e Jesus distribuía, assim, não tem problema.

Da última vez, voltar a comer carne foi uma decisão do universo e não minha. Eu estava novamente sonhando com carne, me sentindo comendo picanha, mas, resistia bravamente, até um sábado que passei novamente por um jejum forçado. Cheguei em casa querendo enfiar o pé na jaca, liguei para uma amiga que estava passando mal, fiquei com preguiça de sair e acabei pedindo uma pizza. Consegui resisti à tentação de pedir uma pizza de peperoni e pedi uma de escarola, bem vegetariana!

Trinta minutas depois eu abro a caixa e meus olhos se arregalam, na caixa havia as mais lindas rodelas de lingüiça calabresa! Nem pensei em ligar e reclamar, pacientemente retirei cada rodela, uma a uma. Até que percebi meu dedos sujos e fui lamber as pontas, senti o sabor da lingüiça, lambi mais uma vez. Por fim, decidi lamber as próprias rodelas! Lambi umas quatro, na quinta decidi que poderia mastigar. Arrependida e com culpa cuspi a carne, mas engoli o sumo.... Olhei bem, olhei de novo e em um gesto repentino e impulsivo peguei todas as rodelas e joguei de volta na pizza. Enrolei bem e comi tudo, a pizza inteira, gigantesca, sozinha recheada de calabresa! (acho que nunca mais vou ter coragem de olhar um porco nos olhos novamente)

Como o meu amigo havia dito, não existem coincidências e temos que entender as mensagens do universo. Como ser inteligente (tudo bem, não entendi a geladeira), mas essa mensagem aqui era clara. A carne tinha chegado como um sinal do céu, como um presente para mim, e presentes a gente não questiona, ainda mais presente do universo. Assim, estou mais uma vez às voltas com meu lado bárbaro e comedor de seres (não por muito tempo, já que minha consciência e culpa não permitem), mas, até lá vocês, caros amigos, poderão ter o prazer de me convidar para um churrasco.


Beijos dominicais com sabor de picanha!!!

P.S - A tirinha é do sapobrothers

P.S II - * Tive que republicar esse texto, caros amigos, cai em tentação novamente e em um ato insano durante 3 dias consecutivos, comi - tenho que admitir, como quem admite os pecados em praça pública esperando ser açoitada - comi galetos. Deus, quase chorei, quase, justamente por não ser, o ser que busco ser, um ser evoluído. Vou parar por aqui, pois esse p.s. tá virando outra postagem!