quarta-feira, maio 12, 2010

Coerência insensata e/ou Incoerência sensata *

Por que me cobram coerência em atos
Quando meus discursos desatam?
A incoerência é sensata.
Prefiro não ser o eu dos momentos distintos,
Prefiro dizer não aos meus credos tão ricos,
Sagrados de outros momentos,
Que não o agora,
Agora, já não sou mais eu,
Fui eu ontem,
Hoje sou outro eu,
O de ontem gostava de nietzchie
ouvia Wagner,
E arquitetura de linhas retas,
O de hoje lê poesia,
ouve Bolero de Ravel,
E, talvez, Carmem de Bizet,
Construção com linhas mais elaboradas,
Entre o eu de ontem e o eu de hoje,
Há toda uma distância dicotômica de quereres,
Minha defesa não se sustenta em discursos vazios,
Rejeito a retórica pura e simples,

E, como naufrago no instante,
abraço a incoerência da vida,
Incoerência dos atos,
Incoerência das palavras,
Incoerência dos quereres,

As coerências não se falam,
Simbologia metafísica nesses universos paralelos,

Meu Deus, que dimensão é essa que me cobra sensatez e coerência?

Cansada, viro pro lado e tento dormir,
Não o sono dos justos,
Pois, para este falta-me merecimento,
Mas, o sono dos incoerentes
Desses, que caminham ao acaso
Sem saber pra onde ir.


(*) reeditado

11 comentários:

Geraldo de Barros disse...

nossa, gostei muito, lindo espaço!

=)

um abraço,
Geraldo.

Patrícia Gonçalves disse...

Obrigada, Geraldo! Gostei bastante também de suas poesias!

Seja bem vindo!

Sarah Slowaska disse...

Eu tenho um tio que costuma dizer algo assim: " Eu sou coerente com a minha incoerência, e comprometido com o meu descompromisso."
E sabe que é assim mesmo que se deve viver? Ao sermos coerentes, acabamos por negligenciar grande parte daquilo que somos. Acabamos por rejeitar qualquer contra-argumentação que possamos levantar dentro de nós mesmos. Acabamos por não viver.
Nós somos amplos, somos muitos, já Pessoa dizia: "Sê plural como o Universo"
Ser sensata demais me atrapalha, me limita, me encarcera. De que nos vale a liberdade no mundo, se vivemos presos dentro do nosso próprio direito de ser livre?

Um beijo querida e obrigada pela visita nos meus dois ' ninhos' :) Seja sempre bem-vinda!
beijos

Patrícia Gonçalves disse...

Sarah, já sei de onde vem sua sabedoria! Moça, é isso mesmo, se tentamos ser sensatos e coerentes nos nossos diversos papéis engessamos nossa existência, nos tolhimos dos beneficios de sermos múltiplos.


beijão

A.S. disse...

Patricia,

Um poema que é simultaneamente um apelo à reflexão!
Gostei muito da mensagem poética que nos deixas!

Beijos
AL

Helcio disse...

Patrícia,
coerente, ate na grafia, lembra muito corrente, né? E nós (incoerentes) somos avessos às correntes, aos grilhões, ao que nos amarra e tenta impedir que sejamos, apenas.
Bela reedição!!

Juan Moravagine Carneiro disse...

Quanta intensidade...confesso que tive que anotar certas coisas presentes em seu poema para poder psquisar....

belo poema

Agradecido pela visita ao Rembrandt

abraço

Patrícia Gonçalves disse...

Al, quando escrevi esse poema tava me dando conta como é difícil ser coerente e sensata nos meus vários papeis, e como é injusto algumas vezes nos cobrarem uma atuação tão retilínea.

beijão

Patrícia Gonçalves disse...

verdade, incoerentes avessos às correntes, tá explicado! casar eu não caso!(rsrsr)

Patrícia Gonçalves disse...

Juan, hahaha, estamos quites então!

beijão

dade amorim disse...

Não só o poema tem toda razão, como a coerência é pura ilusão de quem se acha.

Muito bom, seu poema.

Beijo beijo.