segunda-feira, março 15, 2010

Não estava no roteiro

Por que teimamos em querer dar nomes, etiquetar pessoas e coisas, sentimentos e relações? Tornamos nosso querer imprescindível e passamos a classificar e catalogar tudo e todos. Esse comportamento meio compulsivo me remete ao personagem caricato de Chaplin em Tempos Modernos, só que ao invés de uma chave inglesa teríamos nas mãos um etiquetador. Imagine você travestido de Chaplin com um etiquetador nas mãos etiquetando tudo e todos. É engraçado como filme mudo, mas triste como vida.

Temos que etiquetar e seguir roteiros. Por que nos sentimos mais confortáveis quando achamos que todos estão representando seus papéis pré-definidos dentro da trama? Não há garantia alguma que o roteiro vá ser seguido até o fim, a qualquer hora pode haver troca de papéis ou então terminar a história. Sendo assim, qual a importância de se ter um roteiro? Por que não deixar fluir a trama a partir da interação de cada um? As pessoas preferem lidar com um pseudo roteiro e acreditar na validade deste a terem que lidar com algo desconhecido, novo, que pressupõe certo exercício.

Exercício aqui de se reinventar e se descobrir em outros papeis. Nesse exercício correm-se riscos, riscos de se ousar outras leituras, outras emoções. No entanto, somos limitados pelo medo. Mas, que medo é esse que nos assola e enrijece e nos faz incorporar atitudes tão nocivas a nossa felicidade? Corremos o risco aqui de sermos aqueles velhos atores que desempenham sempre os mesmos papéis, dentro dos mesmos tipos de filme.

O problema é que, com tudo isso, criamos tanta, mas tanta expectativa que interrompemos ou bloqueamos qualquer possibilidade de evolução de uma manifestação espontânea. Esta se perde. Tudo em nome de um pseudo conforto. Questionei isto com uma amiga que me respondeu que não temos como fugir de nossa complexa natureza humana e que isto pressupõe um certo grau de maturidade espiritual, meio distante de nós seres ainda primitivos. Pode ser...

Mas, mesmo com minha complexidade humana e longe de atingir essa maturidade toda, ando ansiando, ando ansiando muito, uma certa liberdade, liberdade de ser, simplesmente ser, sem me preocupar com o roteiro ou com expectativas acerca de meu papel.

14 comentários:

Helcio disse...

Ah!! querida blogueira, bruxa predileta...
Ainda que não haja etiquetas, ainda que estejamos envoltos pelo manto da liberdade, ainda assim,persistirão expectativas, representativas de anseios, remotos, alguns, nascituros, outros.
Maturidade (emocional, espiritual, intelectual) é processo, é da ordem do contínuo, do incessante, à semelhança de expectativas, frustrações, sonhos - de olhos abertos ou fechados.
O desejo é o desejo do outro, nas palavras antigas (e atuais) de Jacques Lacan. Por isso, talvez, ele (o desejo) só se realize no sonho, nos pensamentos oníricos, mas jamais se satisfaça.
E assim, faltantes, erramos (em ambas as acepções), em busca de algo que não temos, mas queremos, refutando obviedades, mas incorrendo nelas, ao repetir suspiros, declarações inopinadas, ao darmos à outra pessoa um poder que, em sentido amplo, não lhe pertence.
A manifestação espontânea se perde? Se ouvirmos Lavoisier, não.
E o que é espontâneo? A ausência de papéis não se consubstanciaria no anti-papel que, portanto, nada mais seria do que uma espécie do gênero, ainda que mitigada pela negação voraz?
Sou um aprendiz, tropeço em meus acertos eventuais e me aqueço com os equívocos, tão recorrentes.
Metamorfose ambulante ou imitador de mim mesmo, considerado em toda a potencialidade, imprevisibilidade e capacidade de ação e superação?
The answer, my friend...
Com a palavra, o vento!!

Jose disse...

Estou aqui lendo algumas de sua orações e me veio o fenômeno comum na natureza chamado mimetismo, que é um fenômeno em que um animal se parece com outro, ou se confunde com o meio em que vive, com a finalidade de levar alguma vantagem nessa simulação. As lições da natureza muitas vezes nos ajudam a entender as pessoas, pois há muitas, senão todas, que também fazem seus mimetismos. O mundo inteiro é mimético, inclusive o mundo do dia-a-dia, que parece ser totalmente conhecido. A verdade é que estamos apenas acostumados a ele, então paramos de nos preocupar em observar e analisá-lo.
Quando isso acontece, passamos a ser enganados pelos sentidos. Num primeiro momento, só percebemos as aparências, e estas, com freqüência, nos enganam, e como...Parabéns Querida continue escrevendo achando que não estás.

Patrícia Gonçalves disse...

Caro comentarista,

Talvez, seus comentários sejam melhores que os textos. Talvez, não, com certeza! Adoro seus comentários! Isso aqui deveria ser uma troca inteligente, réplica e a tréplica dentro do contexto, mas não posso me furtar de elogiar seus comentários! Mesmo que algumas frases não façam muito sentido e eu ache algumas construções mais elaboradas que o capitel coríntio. Resumindo, precisamos de muita terapia, pra dar conta do desejo do outro e o principal, da angústia que paralisa. bj

P.S - IMPLORO QUE VOCÊ CRIE SEU BLOG

Patrícia Gonçalves disse...

Caro Jose,
Obrigado por ter passado aqui. Gostei do mimetismo. Acontece que desaprendermos a olhar, desaprendemos coisas simples. Ficamos com nossos sentidos obliterados. Passe mais por aqui! Beijão,

Patrícia Gonçalves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Helcio disse...

Já "tenho" um blog (este), pois, aqui, sinto-me à vontade para publicizar o privado, ainda que as palavras, por tão singelas, não despertem tanto calor.
Para ajudar a abrilhantar o raciocínio, convidei Leonardo Boff:
"...o amor é um fenômeno cósmico e biológico. o chegar ao nível humano, ele se revela como a grande força de agregação, de simpatia, de solidariedade...em o cuidado essencial, o encaixe do amor não ocorre, não se conserva, não se expande nem permite a consorciação entre os seres. Sem o cuidado não há atmosfera que propicie o forescimento.daquilo que verdadeiramente humaniza: o sentimento profundo, a vontade de partilha e a busca do amor".

Acrescenta, modestamente: aí está a grande e, possivelmente, única e indispensável expectativa, no gênero humano: a ousadia de amar e ser amado (nesta ordem), o que não conspira contra a liberdade individual, não impede vôos de qualquer índole e natureza, nem sufoca a espontaneidade, muito pelo contrário, pois é a vela que, içada, atrairá os melhores ventos e fará a embarcação seguir seu curso, mar adentro.

Patrícia Gonçalves disse...

O amor não conspira, aspira. Aspira espaço para florescer. Espaço para buscar seus caminhos, formas a preencher. Sentimento que não é circunscrito a um trilhar planejado. Poderíamos dizer parafraseando acely hovelacque o amor prefere trilhar trilhas e não trilhos.

Anônimo disse...

Sem querer contrapor-me à Acely, até por ser ela mera interveniente inlectual (risos), ocorre de o amor "sair dos trilhos" (aspas meramente enfatizadoras da expressão). Quando isso ocorre, um descarrilamento, o amor sequer pode preferir algo (nem mesmo trilhas), pois ele tomba,jaz.
E eu prefiro jazz (a metáfora, aqui, não é para simples efeito literário), quero frisar o ritmo, o movimento (sim, há movimento no amor a dois).
Quanto às expectativas (essas vilãs, como se depreende do seu belo post), permito-me a travessura de reivindicá-las, pelo que ostentam (ao menos, para mim) de presentificação do futuro. O futuro dado de presente, não fora de seu tempo, mas saltando o muro da incredulidade e ocupando seu lugar no balé das possibilidades.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Patricia, não pude deixar de sorrir ao imaginar a etiquetadora de pessoas, emoções e pensamentos. e o pior, é que ela existe, ainda que não materialmente.
Tenho pensado nisso, muito, em apenas ser. Me livrar, não dos outros, mas de mim mesma. E deixar a vida apenas viver através de mim.

Gostei muito de te ler, e de vc ter me acolhido no meu blog.

Patrícia Gonçalves disse...

Cara, Wal, parece que a tarefa mais dificil é justamente esta, nos livrarmos de nós mesmos, de todos os acessórios e penduricalhos que integramos ao longo do caminho. E o pior, essa bagagem toda desnecessária acabou virando parte de nós. Seres malas (rsrsr), literalmente.
Um grande beijo, foi um prazer te acolher!

Anônimo disse...

O que será desnecessário em nós? Como discernir entre o supérfluo e o principal?
Serão os desejos meros acessórios? E, para complicar só um pouquinho mais, de que maneira diferenciar, dentre os desejos emergentes, os que poderão ser suprimidos, por nossa autocensura, e os que consentiremos em que sigam sua saga?
Alguns pensadores acreditaram que os desejos seriam os grandes inimigos da sabedoria, do "equilíbrio", da paz interior.
Contudo, fica uma pergunta (mais frutífera do que respostas ágeis demais): sem os desejos, o que moverá nossas vidas? O vento, a monotonia, o "acaso"? Ou o ocaso das utopias?
Ou o descaso? Porque ...casar...eu não caso?!?!

Patrícia Gonçalves disse...

Como discernir entre supérfluo e o principal? Caro anônimo, digo aqui sem pensar “o peso”. Definitivamente é supérfluo tudo aquilo que pesa em nós a existência. A culpa, o ciúme, o ego exacerbado, o medo, as cobranças, nossa incapacidade de ver o outro, nosso pré-julgamento que nos embota. Não chamaria os desejos de acessórios, nem os emergentes, nem os suprimidos. De quê nos serve diferenciar os desejos? Não queremos classificá-los! Não queremos decidir entre assassinar uns e manter outros. Que a vida siga seu fluxo, somos seres imperfeitos, desejosos, de tudo e de todos, deixemos que os desejos movam nossas vidas, assim, como o vento, o acaso e por que não o ocaso? O descaso não, nunca, e verdade, casar eu não caso!

Anônimo disse...

Caríssima pensadora,
o avião é mais pesado que o ar e, contudo....voa!!!
O peso é algo, também, relativo, pois é atribuído por nossas almas que, de tempos em tempos, precisam aferir a balança, que claudica, ante a enxurrada de motivos para desacreditar em tudo que é novo e, por isso mesmo, assusta bastante.
Culpa, ciúme, ego exacerbado, cobranças, pré-julgamentos...ufa! kit completo da anti-vida, enxoval completo (alusão bem-humorada ao fantasmático casamento) de tudo que desejo (viva o desejo) bem distante de mim.
Permita-me, sensível blogueira, discordar de um ponto: não somos desejantes de tudo e de todos: muitas coisas e muitas pessoas são diametralmente opostos aos meus valores, nos quais acredito e que guiam minha vida.
Mas, quanto ao epílogo, estamos acordes. continar

Patrícia Gonçalves disse...

Prezado,

Desejar tudo e todos foi mero efeito ilustrativo de nós seres imperfeitos com desejos incontroláveis, desses que não passam pela razão nem adianta tentar reprimir. ex: pessoas que são diametralmente opostas aos nossos valores e que mesmo assim não conseguimos nos desprender. Não leve tudo ao pé da letra, isso sim faz claudicar a balança e a existência, pesos imprecisos e medidas imaginárias.