segunda-feira, junho 28, 2010

Falta de sintonia

As palavras não acompanham o discurso
fogem rebeldes rejeitando definições
o discurso tão pouco, segue os atos
ou, talvez, os atos abandonaram o discurso ao longo da via
andam a esmo agora, sem bussola ou mesmo um GPS

discurso sem palavras
atos ausentes de discursos
palavras vazias de atos
equação que não se fecha

atos, discursos e palavras
que seguem por vias distintas

precisa-se de domadores
domadores de palavras
pede-se o uso da não violência
palavras são frágeis e sensíveis
apavoradas, podem se perder

pede-se também rastreador de atos
fundamental seguir trilhas passadas, presentes, quiçá até futuro
que saiba interpretar pegadas e rastros deixados na poeira do acaso

para finalizar, uma boa costureira
dessas bem prendadas
para fazer um bonito patchwork
pede-se que seja atenta aos detalhes
tenha harmonia e equilíbrio na composição

Tenho certeza, que com linha e agulha
minhas palavras presas ficariam ao discurso
e, este, circunscrito, à mandala de meus atos

P.S - Esse poema saiu mais como um grito de guerra quando tudo estava desencontrado. Somente aqui caberia o domador de palavras. Porque na minha vida, não há espaço pra domadores, nem de palavras, nem de atos, muito menos de sentimentos. Sou um ser rebelde por natureza, selvagem, tal como as palavras, quero viver solta, livre, como num verso sem rima. 


18 comentários:

Marcio Nicolau disse...

Temi os tais domadores de palavras. Felizmente em seguida, houve palavra redentora e amena.

So cute.

Helcio Maia disse...

A distância entre intenção e gesto, palavras que não colam nos sentimentos, significantes que não acasalam com significados, gatas que não sobem em telhados, cães que ladram e mordem, a sanha de fugir, a senha que perdi, o medo de amar...

Patrícia Gonçalves disse...

Marcio, sabe que eu também, mas como a maça não cai longe da arvore...

Thank you!

Patrícia Gonçalves disse...

Helcio, é complicado, muitas vezes o discurso é completamente ausente de palavras, significantes e significados não se representam nos atos. Esses não se sustentam, vazios também.

Valéria Sorohan disse...

Lindo este seu poema e que várias sensações me trouxe à flor da pele...e isso é bom, é a magia das suas palavras. Adorei!

BeijooO*

Carol Morais disse...

As vezes, quando tudo parece desconexo, nossa alma e nossa mente conseguem gritar como você fez. Gritam muito e desse grito saem palavras magníficas!

Seu blog está muito lindo!
Um beijo

Marcio Nicolau disse...

A maçã não cai longe da árvore? rs Adorei. Mas o que quer dizer?

Bípede Falante disse...

Eu, hoje, também, estou tendo dificuldades com as palavras. Parecem presas, e não há jeito que consigam escapar de mim. Antes na confusão como as suas, o que rende um belo poema, do que no silêncio das minhas que nada rende, a não ser uma dor no peito.

Andrea de Godoy Neto disse...

Patrícia, que belo grito de guerra!
as palavras tem vida própria, às vezes, vão por onde não as podemos alcançar..mas importante é que sempre nos voltam. Afinal, para que domador, né? as palavras livres vão...e livres vêm.

um beijo pra ti

Sylvia Araujo disse...

"pede-se o uso da não violência
palavras são frágeis e sensíveis
apavoradas, podem se perder"

Danado de bonito.

E liberdade, já! (levanto bandeira contigo, faço comício, o que for)

Beijoca, querida!

Lua Nova disse...

Às vezes, almas voluntariosas como as nossas, sentem um necessidade nostalgica e secreta de serem contidas, guiadas, desejam um colo de alguém em quem confiar. Um domador de intensidade que nos dê o tempo suficiente pra descansar da nossa independência exuberante e que tantas vezes, se parece com a solidão.
Beijos.

Patrícia Gonçalves disse...

Valéria, que bom que gostou! Bom saber que o poema causou sensações!!!

beijão

Patrícia Gonçalves disse...

Carolzinha, obrigada. Meu problema é que sou barulhenta, acho que iria preferir que do meu silêncio saíssem palavras...

beijo!

Patrícia Gonçalves disse...

Márcio, a maça não cai longe da árvore, minhas palavras também não!

Patrícia Gonçalves disse...

Bípede, conheço essa dor do abandono silencioso das palavras....

bj

Patrícia Gonçalves disse...

Andrea, Obrigada! Isso mesmo, temos que tratar bem as palavras, liberdade!

Patrícia Gonçalves disse...

Sylvia, obrigada!

Liberdade, liberdade, liberdade!!!!

beijão!

Patrícia Gonçalves disse...

Lua Nova, será? Se bem que..., é verdade, seria bom, como os personagens dos seus contos que tanto amo!!!

beijão linda!