sábado, junho 19, 2010

Nós seres comedores *

Quem me conhece acompanha minha luta, batalha interna em me tornar um ser mais evoluído, integrado à natureza, e, no meu caso, vegetariano. Há uns 9 anos que vivo entre estar vegetariano e onívoro. Sim, estar, um amigo disse que eu não era vegetariana, estava. Ele estava certo, nesses nove anos nunca fui totalmente vegetariana.

Tudo começou na gravidez, fui fazer yoga e tive oportunidade de conviver com seres mais evoluídos, que se preocupam com o planeta, energias e seres vivos não comestíveis. Sou uma pessoa altamente influenciável, ainda bem, na adolescência minha mãe vivia me dizendo para olhar as companhias, e eu morria de medo das más companhias que comiam criancinhas. Assim, passei incólume pela adolescência, sem ter comido criancinha alguma, isso só foi acontecer mais tarde, na fase adulta.

Pois bem, nesse grupo comecei a ter preocupações com alimentação, arroz cateto, feijão azuki, algas, pastas de soja, pão sem glúten, clorofila, e por aí vai. Sou extremista do tipo radical, quando mergulho, mergulho fundo, não dou vôos rasantes. E assim, fiquei mais radical dos mais radicais, parecia que tinha nascido vegetariana.

Tudo piorou quando influenciada por um amigo, comecei a querer me alimentar com comida crua, esse então comia pão assado no calor do sol. E, o interessante é que uma viagem leva a outra viagem e a outra, sempre com companheiros de viagem mais interessantes, que contribuem para encher nossa maleta de viagem cada vez mais com esquisitices. Dessas minhas viagens comecei a beber água com argila que é excelente, carvão vegetal em pó, clorofila, suco verde, babosa etc.

Recentemente, não tão recentemente, desde que me separei, venho tentando manter a alimentação mais saudável e não comer seres vivos com mobilidade.(Segundo um amigo, ele é carnívoro porque é contra comer seres imóveis, os vegetais nada podem fazer para fugir a nossa caçada). Mas, digo que é difícil, fico sempre na linha tênue em ser mais evoluída e me levar pelos anseios primitivos da carne que me acometem. Assim, venho alternando períodos evoluídos com períodos de barbárie (desculpem-me, seres comedores de carne), mas é assim que me sinto.

Toda vez que acho que estou caindo em tentação entro naqueles sites vegetarianos que mostram porquinhos, vaquinhas, pintinhos com as histórias mais tristes e eu choro horrores (meus filhos já até sabem e perguntam - mãe, você esta vendo a vitela de novo!?). Depois, saio renovada e fico ainda mais determinada a não me deixar levar pelos meus instintos de predadora. Visitar esses sites aplaca minha fome de carne, mas da última vez, não adiantou muito...


A primeira vez que sucumbi, eu já estava há um bom tempo sem comer carne e vivia sonhando com bacon, presuntos e costelas. Verdade, tinha um sonho que era recorrente, uma festa romana com bailarinas em roupas esvoaçantes dançando com pernis assados em bandejas. Não me pergunte o porquê das bailarinas, nem eu nem a analista decodificamos o sonho.

Nessa época eu tive uma gastroenterite braba, quase morri (sou exagerada) fiquei três dias comendo papa de arroz sem tempero e óleo algum. No terceiro dia, tonta de fome fui ao supermercado comprar alimentos, e sem me dar conta me peguei parada em frente à seção de frios, fiquei namorando todos aqueles pastramis, presuntos, parmas e mortadelas. Não agüentei muito tempo, comprei meio quilo de alguma coisa vermelha, cheirosa e saborosa, não esperei nem chegar em casa, comi uns 3 sanduíches no estacionamento. No dia seguinte comi feijoada e no terceiro dia, um joelho de porco em um maravilhoso restaurante alemão. E o pior, é que não senti nada, nada, nenhum mal estar, absolutamente, nada, nada que pudesse dar forma ou cor a uma possível culpa de comer meus irmãozinhos.

Os amigos deliram de felicidade quando você cai em tentação, é como se você tivesse uma doença grave, e, de repente, estivesse livre da morte. Não entendo.

A carne de vaca eu não como até hoje, mas, de carne branca passei a comer carne bege, mais recentemente rosa e laranja. Já me percebi relativizando e reclassificando, o camarão é quase um vegetal, poderia ser uma planta, a lagosta também não conta, o peixe é peixe e Jesus distribuía, assim, não tem problema.

Da última vez, voltar a comer carne foi uma decisão do universo e não minha. Eu estava novamente sonhando com carne, me sentindo comendo picanha, mas, resistia bravamente, até um sábado que passei novamente por um jejum forçado. Cheguei em casa querendo enfiar o pé na jaca, liguei para uma amiga que estava passando mal, fiquei com preguiça de sair e acabei pedindo uma pizza. Consegui resisti à tentação de pedir uma pizza de peperoni e pedi uma de escarola, bem vegetariana!

Trinta minutas depois eu abro a caixa e meus olhos se arregalam, na caixa havia as mais lindas rodelas de lingüiça calabresa! Nem pensei em ligar e reclamar, pacientemente retirei cada rodela, uma a uma. Até que percebi meu dedos sujos e fui lamber as pontas, senti o sabor da lingüiça, lambi mais uma vez. Por fim, decidi lamber as próprias rodelas! Lambi umas quatro, na quinta decidi que poderia mastigar. Arrependida e com culpa cuspi a carne, mas engoli o sumo.... Olhei bem, olhei de novo e em um gesto repentino e impulsivo peguei todas as rodelas e joguei de volta na pizza. Enrolei bem e comi tudo, a pizza inteira, gigantesca, sozinha recheada de calabresa! (acho que nunca mais vou ter coragem de olhar um porco nos olhos novamente)

Como o meu amigo havia dito, não existem coincidências e temos que entender as mensagens do universo. Como ser inteligente (tudo bem, não entendi a geladeira), mas essa mensagem aqui era clara. A carne tinha chegado como um sinal do céu, como um presente para mim, e presentes a gente não questiona, ainda mais presente do universo! Assim, estou mais uma vez às voltas com meu lado bárbaro e comedor de seres (não por muito tempo, já que minha consciência e culpa não permitem), mas, até lá vocês, caros amigos, poderão ter o prazer de me convidar para um churrasco.






Tirinha do Sapobrothers


* Reeditado - Estou sentindo necessidade de rir, de derreter um pouco a neve branca que cobre essas paredes do blog! (Derreti, tanto que pintei as paredes de arco-íris)


Grande beijo a todos!

22 comentários:

HM disse...

Se somos o que comemos, é preciso ter muito cuidado com as extravagâncias rsrs
Mas acredito, mesmo, que devemos ser seletivos e cuidadosos. Contudo, um milkshake, de vez em quando...
Equilíbrio, o quanto pudermos, mas sem perder a..gordura, jamais hehehe
Beijos, branca de neve!!

Lua Nova disse...

Absolutamente formidável... e admirável sua luta pela evolução... rsrsrrs. Vivo a mesma angústia desse quentionamento. Sou louca por bichos, acredito que deveríamos trabalhar para que as matanças cruéis acabassem, mas NÃO CONSIGO parar de comer carne... oh,Deus!Quanta culpa! Mas que prazer inenarrável comer uma picanha mal passada. O pior é que gosto de carne mal passada, só com o calor do boi! Afff... eu não presto!
Bem, seu post é muito bom de ler e muito engraçado, sem contar que deve ser a realidade de muitos de nós, os "quase" evoluidos! rsrsrrsr...
Obrigada pelas risadas matutinas. Li seu post pra minha família e todos se identificaram.
Beijos.

Sarah Slowaska disse...

Eu fui vegetariana durante uns 2 anos, o meu irmão é a mais de 5. Deixei de ser porque fiquei com anemia devido ao facto de, àquela época, não substituir bem a alimentação.
Este ano, se estiver tudo bem com as minhas análises, voltarei a ser. O homem não tem necessidade alguma de comer carne. Isso é algo primitivo. Ele não depende dos animais para a sua sobrevivência, para não dizer que é cruel e inumano.
Mas pronto, como tudo na vida, ser vegetariano é uma opção.

beijos querida.

Sil.. disse...

Ahhh Pat, queridaaaaa!

Bom. Vegetariana eu jamais seria, se bemmmmm que: Não como muita carne vermelha, confesso, pq tbm não sou "mui" chegada, mas pelamor....quer me matar, me convide para um churrasco hahahahha.
Se somos o que comemos, eu não sei se acredito nisso, mas ainda devemos ser aquilo que queremos ser.

No meu caso, escolhi ser Tresloucadaaaaaaa.
Ser normal aos olhos dos outros é bobagem minha querida.

Eu te adoro, sabia?

Um abraço grande!

Carol Timm disse...

Adorei sua narrativa de persistência e recaídas da alimnetação vegetariana. Ainda bem que podemos brincar com nossas fraquezas! A tirinha da picanha de soja também está saborosa!

Bjs e bom domingo!
Carol

Marcio Nicolau disse...

Tenho gostado demais dos textos que aqui encontro. Inclusive indiquei a leitura a dois amigos já. É estranha, mas ocorre a sensação de familiaridade em relação a tua escrita (que, nem de longe, é parecida com a minha).
Parabéns e continue produzindo. Quando puder, me visite. Eu sigo também tentando.

Saulo Taveira disse...

Adorei o amigo q não come seres imóveis, nunca olhei por este prisma. rssr

Bela escrita! Que facilidade, menina.

Bjus.

"Dulce Navaja" disse...

Olá Patrícia! Não se culpe tanto por ser uma predadora. Lutar contra a própria natureza me parece mais bárbaro.rs
Espero do fundo do coração que vc não esteja recorrendo ao uso de ansiolíticos alopatas para fugir de seus instintos.Pior do que a morte das deliciosas vaquinhas é o enriquecimento da indústria farmacêutica. Rssss
Gde beijo e parabéns pelo texto.

Juan Moravagine Carneiro disse...

lindo escrito...

Já fazem 8 anos que me tornei vegetariano...ou seja desde os meus 17 anos..rsr...

Agradecido pelas visitas ao Rembrandt
abraço

Sylvia Araujo disse...

Ahahahahahahahahaha

Que de-lí-cia de textto, Patrícia!

Eu não sou muito fã de carne vermelha, mas não por radicalismos. Só odeio ter que ficar mastigando 275 vezes um pedaço de qualquer coisa que seja antes de engolir. E o pior é que quando engulo dois, me sinto tão pesada que fico parecendo um boi na sombra por pelo menos 5 horas. Melhor deixar essas coisas pra quem sabe, né? rs

Beijoca

Patrícia Gonçalves disse...

Helcio, sei não, acho que não gosto muito de pensar "que somos o que comemos", tipo adoro pepino e abacaxi, seria eu então um ser híbrido um pepino espinhudo? acho que prefiro ser alma penada, pelada e peluda KKKKKK

beijos

Patrícia Gonçalves disse...

Lua Nova, essa nossa saga de ser evoluído é trabalhosa.

Adoro o cheiro de picanha, bacon, mas definitivamente não como carne de vaca, já até tentei, mas não consegui.
Agora, coitada da galinha, essa pena, literalmente, quando escorrego sempre como galinha.

Que bom que todos gostaram e riram!

Beijos a todos!

Patrícia Gonçalves disse...

Concordo Sarah, imaginar o sofrimento do bicho me deixa muito mal. Se buscamos um mundo melhor, sem dor para todos, não podemos excluir os animais, mas é complicado.

Minha opção de não comer carne também passa pelo lado espiritual, acho que precisamos de bons combustíveis se quisermos ser um canal de luz e amor.

beijo bem verde pra você, da cor da folhinha do alface!

Patrícia Gonçalves disse...

Sil, linda, excelente opção sua!!!

Você é vegetariana ou onívora? Nenhum dos dois, sou tresloucada!!!hahahah

Há muito que deixei de parecer normal...

Beijo grande amiga!!!!

P.S - Beijo maior ainda, é tão lindo ver você espalhando carinho e generosidade na blogosfera!

Patrícia Gonçalves disse...

Carol, pelo menos temos isso de consolo, poder rir de nossas fraquezas!!!

As tirinhas do Sapo brothers do Rafael Dourado são geniais!


Beijo grande!

Patrícia Gonçalves disse...

Márcio, obrigada! Acontece muito da gente sentir familiaridade com o texto de alguém! Quem bom! Gosto também bastante do modo como escreve!

Sigamos!!!!

Grande beijo!

Patrícia Gonçalves disse...

Obrigada, Saulo, esse meu amigo é um bandido disfarçado!!! Vive me criticando por comer vegetais! Vou fazer o que, né?! Mas, pelo menos a teoria dele é boa!!!

Beijos

Patrícia Gonçalves disse...

Obrigada, Dulce. Não, linda, não recorro aos ansiolíticos, sou ansiosa mesmo!

Como, e depois escrevo para expiar minha culpa! Escrever é o melhor remédio, alguém já deve ter dito isso!!!

beijo grande

Patrícia Gonçalves disse...

Que legal, Juan, 7 anos sem carne!

Tenho uma longa estrada pela frente, é bom ver seres mais evoluídos e que escrevem tão bem.

Será que é isso? A Sarah escreve divinamente e não come carne, o Helcio também não, agora você! Mais uma razão para não comer carne, carne embota os sentidos e os versos!!!

Beijo grande

Patrícia Gonçalves disse...

Syl, que bom que gostou do texto!!!

Eu também, como ansiosa que sou não consigo nunca mastigar trocentas milhoes de vezes, quando vejo já engoli!!!

beijo grande!!!

Iram M. disse...

Morri de rir desse post.
Me fez lembrar de uma amiga daqui de Viena. Eu a chamo de piriquita, pois só come alimentos vivos, e o fogão da casa dela foi retirado da cozinha. E por azar, morro de vontade de comer algo bem quentinho, quando vou visitá-la. É muito engraçado.

Beijo

Iram

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Patrícia, finalmente vim ler o que vc me sugeriu.

Menina, muito bem escrito e cativante, que é a sua marca. Sempre gosto mais quando vc fala de vc, assim, deslavadamente.

Nem te conto como briguei com isso a vida toda, e sim, tbm fui crudivorista, suco da luz do sol e etc.

Mas sabe, hoje eu penso assim: meu, quando eu morrer, terei toda a eternidade para não comer, não beber e não fumar. Assim enquanto tenho aqui esse corpinho, absolutamente viciado nos prazeres da sua carne, vou aproveitar.

Decisões que passam por abstinência, síndromes, sonhos, sacrifícios, ah...tenha dó.

tenho coisa mais importante pra mudar na minha alma.

Wellllll,sei lá, difícil dizer tudo aqui, assim, espero que vc me compreenda.