sábado, julho 17, 2010

Manhã na praça *

Pegue uma xícara de chá quente ou então café, e saboreie o texto e a bebida nesta manhã chuvosa. 


Sentou-se à praça como quem não quer nada, como se não houvesse nada a fazer, nem filhos, nem marido ou trabalho. O doce sabor da rebeldia. Estava uma manhã agradável, dessas que convidam a celebrar a vida. Uma decisão acertada.

Nada premeditado, simplesmente aconteceu. Quando subiu as escadas do metrô e foi surpreendida pelo azul do céu, se deixou guiar pelas ruas como quem admira de forma displicente os passantes, as vitrines, a arquitetura dos prédios, os pombos nas igrejas. Inspirou o ar puro da manhã, era turista em sua própria cidade! Nunca havia sido turista em lugar algum, desconhecia tal sensação.

Continuou caminhando até chegar a uma praça. Praça, como tantas outras, de outras ruas, de outros dias, de ontem, mas hoje, embora simplesmente uma praça, era a sua praça. Escolheu cuidadosamente onde sentar, como se o lugar definisse o destino do dia. Sentar ao sol, embaixo da árvore, perto do homem,..., norte, sul, leste, oeste..., nunca fora boa em geografia... Onde sentar..., virou-se, caminhou e sentou-se. Boa escolha, sentar ao sol.

No entanto, ficou nervosa, não sabia o que fazer, como sentir o sol, onde colocar as mãos. Era tão simples, simplesmente ser e estar e deixar acontecer. Tinha que aprender a ser mais espontânea. Tanta coisa a aprender e tantas decisões a tomar, 38 anos. Marido, filho, trabalho.

Estava realmente nervosa, não conseguia decifrar o sentimento. Remetia a algo passado, quando jovem e se preparava para um primeiro encontro. O medo de encontrar o desconhecido, ficar cara a cara com a surpresa do novo, ser desvendada e desvendar. Havia um certo estresse, era como se fosse aguardada, esperada de forma ansiosa por alguém. Cristina, sentada no banco, perdida de si, perdida da vida, ainda não havia se dado conta, de que o encontro, era com ela mesma. Um encontro muito aguardado e sempre adiado.

Remexeu a bolsa, procurando algo, tentando dissimular o crime cometido, o furto de uma manhã de trabalho. Não havia delito algum, não havia sido apanhada em flagrante. Tentou conter a culpa, se lembrou de praticar o exercício que a terapeuta havia ensinado. Respirar, 20 vezes, quatro de forma rápida e curta e uma profunda e longa. Começou, inspirou e expirou, perdeu as curtas, as longas e as contas. Recomeçou e abandonou o exercício. Achava aquilo um saco, sempre perdia a conta e sempre mentia para a terapeuta que estava praticando religiosamente. Divertia-se com a terapeuta, pregando pequeninas mentiras ingênuas sem grandes efeitos, feito menina sapeca.

Estava mais calma, ponderou se era resultado do exercício. Talvez funcionasse mesmo. Inspirou profundamente e, largou o corpo. Bem melhor. Estirou o pescoço para trás, deixou a cabeça pender de forma lânguida sobre o encosto do banco e se ofereceu sem pudor ao sol. Recebeu em troca um cálido beijo de amante novo. Os cabelos deslizaram desnudando a face. Era bonita. Há quanto tempo não percebia o calor do sol na pele, hhumm... como era gostoso. Pensou em sexo, há quanto tempo não tinha um orgasmo, pensamento furtivo, tentou se lembrar de cabeça, recorreu aos dedos, deixou pra lá. 38 anos. Olhou a volta receosa, como se alguém pudesse ler seus pensamentos mais íntimos, ora, pensamentos são sempre íntimos, ou não?

*P.S - Reedição - Quantas vezes nos esquivamos dos encontros, quantas vezes desviamos o olhar do espelho, quantas vezes fugimos de situações e deixamos para o tempo ou a vida resolverem....


19 comentários:

Helcio Maia disse...

Que "ps" !! Sigla de "para saborear"?
Pois bem, as esquivas, os desvios, as fugas, o tempo, a vida...
E os encontros ficam para depois? Depois de que?

Saulo Taveira disse...

Várias vezes nos esquivamos de nós, mas sempre há tempo. Como é lindo o texto, a simplicidade, a espontaneidade. Vi cada cena, gosto de cometer cada um desses crimes. Aliás, se sempre os cometêssemos não teriamos tamanha tensão. Certamente mais tesão, mais orgasmos; mais livres mais completos.
Beijo quente, sol tímido se abre, vale abrir a janela.

Marcio Nicolau disse...

Patrícia: fiquei emocionado. (Eu ia acrescentar "de verdade", mas em tempo lembrei que é sempre de verdade)

Marcio Nicolau disse...

Percebo, às vezes, o que chamo de "chaves para a compreensão do texto", mas nem sempre verbalizo isso em meus comentários. Isso porque não pretendo interferir na leitura alheia e além disso, creio cada vez mais: explicações são desnecessárias em se tratando de sentimentos e percepção.
No entanto, não me furtarei dessa vez a chamar a atenção para a sutil expressão "recorreu aos dedos, deixou pra lá", no finzinho do texto, que é ambígua e maravilhosa, Patrícia. De arrepiar!
Parabéns.
Sensível e envolvente escrita. Sobre uma e todas as mulheres.

Um beijo grande.

Sarah Slowaska disse...

Saboreei, viu! E adorei! A minha fase de fuga, já passou. Prefiro enfrentar-me, confessar que o bicho papão nunca esteve debaixo da cama, mas dentro de mim.


beijos querida

Patrícia Gonçalves disse...

Helcio, sou viciada em p.s., algumas vezes faço ps1, 2, 3 por aí vai...

Os encontros não ficam, e o perigo é esse, passar pela vida e nunca se encontrar...

beijo grande!

Patrícia Gonçalves disse...

Saulo, lindo seu comentário, vale sim abrir a janela!!

beijo

Patrícia Gonçalves disse...

Marcio, eu é que fico emocionada com os comentários de vocês.

Tem hora que chega a ser estranho, sabe? Pessoas que nunca vimos e nos tocam...

Patrícia Gonçalves disse...

Obrigada, Marcio, mais uma vez! Agora que você chamou a atenção percebo, mas a ambiguidade não foi intencional.

Que bom que gostou do texto! Fico feliz!

beijão!

Patrícia Gonçalves disse...

Sarah, que bom! Ainda mais quando essas fases passam...

Um beijão querida!!!

Marcio Nicolau disse...

sentimentos e percepção. Como eu disse mais cedo: não se explica.

Beijo grande e siga escrevendo.

Sylvio de Alencar. disse...

Sou fã desses encontros com a gente mesmo...
Foi só ela parar que começou a se perceber, e ao sol...

Robin K disse...

Toda a nossa vida é uma grande fuga aos nossos medos.

Canteiro Pessoal disse...

Patrícia, fascinante essa chamada do entrar em si, e sair do casulo.

Lembra-me de algo, remetida à rebobinação, falando a minha pele que se rasga: '... mas descubro que conheço apenas a sala de visita do meu próprio ser'.

Abraços.

Priscila Cáliga

Patrícia Gonçalves disse...

Márcio, valeu, seguirei desde que venhas me ler!:)

beijo grande

Patrícia Gonçalves disse...

Sylvio, sou fã de encontros, rsrs, e se me lembro bem você ficou de convidar a mim e aos meus outros eus para tomar café, chequei com os outros e ninguém foi convidado, hehehe!

beijão

Patrícia Gonçalves disse...

Priscila, incrível como é difícil esse passeio por nossos aposentos, algumas vezes como visitas tímidas nos restringimos a sala de estar.

beijo grande e volte sempre!

Patrícia Gonçalves disse...

Robin, não sei se é fuga dos medos ou de nós...

beijão

Canteiro Pessoal disse...

Patrícia, exatamente. Lá, no fundo, profundo e distante, o receio da descoberta [re] descoberta, assim como se arranca a primeira camada da pele.

Abraços.

Priscila Cáliga