terça-feira, agosto 24, 2010

Nossa busca no outro*

Esse mundo virtual é um prato perfeito para vivermos todos os personagens possíveis e imagináveis, aqui somos belos, altos, magros, íntegros etc. Escolhemos a melhor vida, a mais atraente, acrescentamos qualidades, diminuímos defeitos e..., estamos prontos! Produto acabado muito melhor que o fabricado por Deus.

Talvez, seja a promessa de sermos melhores, de termos vida mais interessante, de fazermos coisas diferentes, é a promessa de se recriar. Não é incrível, quanta porta, sonhos, economia de anos de análise essa telinha proporciona.

Realmente, que paradoxo, criamos nosso real perfeito no virtual. O único problema é que em algum momento teremos que transferir a perfeição para o real. Até lá prevalece a opção de ser você/real ou estender um pouco mais a novela criada.

Aqui podemos ser lindos e maravilhosos, não importa se não correspondemos aos ideais de beleza, porque estamos no plano virtual. Que se dane meus três olhos ou minhas verrugas ou qualquer outra coisa. A ausência de barreiras também facilita, pois cria um processo de intimidade gritante, em questão de horas se fica extremamente intimo de um inteiro desconhecido, e como, em um ato de confissão nos revelamos inteiramente, sem pudor.

Nosso interesse é limitado ao nosso discurso. A única coisa que importa aqui são as palavras, nos construimos com as palavras, sou o que escrevo e como me expresso. Não importa, se não me encaixo em padrões sociais, de qualquer ordem. Aqui, um deslize meu ou seu e o encanto (curiosidade ou/e interesse pelo mistério) desaparece. A possibilidade de desvendar ou construir o outro pelas palavras se apresenta como uma oportunidade altamente tentadora. O outro vai se descortinando aos poucos, fica na construção do idealizado. O outro é o que idealizo, na possibilidade do vir a ser.

O que nos move? Na verdade, o que nos move é a nossa eterna busca por nós mesmos. A busca pelo outro se revela efetivamente interessante, a partir do momento que o que nos fascina no outro é a nossa semelhança, a possibilidade do nosso reencontro. Que louco não, nos interessarmos por nós mesmos, enquanto no outro. Por que será que precisamos de referências externas, por que precisamos de espelhos? É meio narcisita não? Gostar do outro quando o outro se revela tão próximo de minha imagem.

O problema é a transferência para o real, as pessoas criam um mundo perfeito no virtual, relações perfeitas e tentam reproduzi-los no real. É complicado, mas como somos otimistas irrecuperáveis, acreditamos, bem lá no fundinho, que conseguiremos de alguma forma, criar o mundo perfeito, encontrar o amigo perfeito, um amante perfeito ou no melhor dos mundos nossa alma gêmea. Agora, isso já é assunto para outro post.

* - Reeditado. Peço desculpas pela ausência de textos, sinto muitas saudades de todos, sinto saudade de lê-los, de visitá-los, quando finalmente coloco as crianças pra dormir eu caio no sono com elas e não consigo entrar no blog. Um beijo grande a todos! 

33 comentários:

Poupée Amélie™ disse...

Olá Patrícia! Adorei o blog!
Quanto a esse post, penso que o mundo virtual 'nos permite', mas ao mesmo tempo, nos isola. É algo mágico e ilusório.
De qualquer forma, funciona também como um bom divã.

Sigo!
BjO*

Valéria Sorohan disse...

É vc realmente está sumida. No mundo virtual, todo o cuidado é pouco. Quando a vida real grita, a vida virtual tem mais é que esperar.

BeijooO*

Ivan Bueno disse...

Patrícia,

Que texto bom, que boa reflexão. Altamente psicanalítico. Aliás você diz tudo em

"O que nos move? Na verdade, o que nos move é a nossa eterna busca por nós mesmos..." e adiante.

O mundo é um mundo de "espelhos", sim, em boa parte. Eu costumo dizer que escrevo por catarse, que é o princípio básico da psicanálise. Falar, falar, falar, deixar as livres associações de fatos fluírem. Um dia nos deparamos com algo que sabíamos sem saber que sabíamos, como bem disse Freud.

Beijo grande, moça.

Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
www.eng-ivanbueno.blogspot.com

Saulo Taveira disse...

Patrícia...
Saudades de ti. Mas muito contente em abri o blog hoje e ver postagem aqui e no Jujubas.
É gata, buscamos o espelho. Engraçado que a identificação começa na infância; a necessidade de identificação, de enquadrar-se surge forte na adolescência e carregamos isso pro resto da vida. Que bom que me identifiquei com você!!! É, construí uma imagem tua pelo que escreves, mas não me incomodo com isso e nem te aprisiono nela. Te gosto como vens ou como vier.

Beijos.

Ester disse...

Ah, minha amiga!

Não saberia dizer o quanto gostei dessa sua crônica... Sei que faz muito, muito tempo que não leio algo tão direto e bom de se ler e se encaixar!
Vc me fez rir com os três olhos e as verrugas...hahaha!!! É verdade essa coisa que idealizamos no virtual, é automático e nem nos damos conta como esse mecanismo se dá, agora te lendo fiquei bastante pensativa, e entendi pela primeira vez e de forma clara, o por que deu não conseguir me encontrar com minhas amigas virtuais no real. Marcamos algumas vezes e sempre encontro uma desculpa para desmarcar. Eu as adoro, temos uma ligação super bacana aqui no virtual, mas quando fala do encontro, dá um certo pânico. Não havia parado para pensar direito sobre isto, e não precisou, visto que vc colocou de maneira brilhante o que ocorre nesses caso.
Vc acertou em cheio ao reeditar esse texto, adorei...
Obrigada por partilhar a tua sabedoria conosco!

Beijinhos e minha admiração sempre!

Naty e Carlos disse...

Ser importante é fazer com que as pessoas gostem de nos, assim do jeito que somos, e se alguém não der importância a isso, este alguém nunca foi importante para nos.
Uma boa semana
Bjs com carinho

Bípede Falante disse...

Sinto falta dos seus posts. Eu sei que se uma criança dá muito trabalho, duas dão muito mais. Mas tente bloguear na medida do possível. bj.

Sil.. disse...

Patriciaaaaaaaaaa (amadaaaaaaaaa).
Tbm saudade, ontem li esse seu post, mas quem disseeeee que eu consegui comentar?
(Uma vontade absurda de atirar o pc pela janela).

Esse mundo virtual é muito doido mesmo Pat. Todo cuidado é pouco.
Só acho que a gente não deve misturar as coisas. Real e virtual nem sempre caminham juntos.
Mas, o virtual é uma maravilha.
De certa forma, a gente proteje aqui alguns sentimentos.
Não deixa de ser uma boa terapia.

Some assim não, viu!
(Se bem que eu sei perfeitamente o que é TEMPO, afff).

Beijooooooo linda.

E eu te gosto muito!

Mariane disse...

Tuas palavras certeiras menina!
Este é o alimento que nos nutre, as trocas que este meio virtual fornece, a priore sem preconceito, ultrapassando as barreiras socialmente impostas. Galagando um crescimento pela auto relfexão e também pelas devolutiva nos comentários feitos.
Gosto da maneira como te expressas, amo ler a tua simplicidade de ser mãe, és bela por inteiro.
Beijos mil
Da Mari

carmen silvia presotto disse...

Patrícia Querida, que bom te ler, sem os outros não existimos, somos nada...

Um beijo grande, companheiro e obrigada por estares lá em Vidráguas.

Carmen Silvia Presotto
www.vidraguas.com.br

Patrícia Gonçalves disse...

Poupe, gostaria de te dar algum prêmio, um regalo, és a centésima seguidora!!!!!

Moça, percebi afinidades na escrita, no observar. Também te sigo!

Seja bem vinda!

Beijão

Patrícia Gonçalves disse...

Digo, Poupée!!!!

Patrícia Gonçalves disse...

Oi, Valéria, sabe, tenho andado cansada demais e sem muito animo de visitar os blogs e escrever. É complicado dar conta de visitar todos os seguidores e comentar no blog de todos, quando você chega em casa tarde do trabalho e ainda tem colocar duas crianças para dormir. Sempre acabo dormindo com elas!

Beijo

Patrícia Gonçalves disse...

Querido Ivan, sabe que quando postei esse texto, pensei em você. Sério! Me lembrei dos seus questionamentos e de suas buscas!

Que bom que gostou, gosto de seu olhar analítico!

beijo grande!

Patrícia Gonçalves disse...

Saulo, que lindo que escreveu, que não me aprisiona na imagem construída pra mim.

É muito bom quando nos identificamos com algo, melhor ainda quando nasce uma troca boa!

beijo enorme!

Patrícia Gonçalves disse...

Ah Ester, sabedoria nada, impressões recolhidas aqui e ali. Mas, que coisa maluca não, acho que também temos medo de nos desapontar, vai que não rola uma química, porque entre amigos também há química!

Que bom que você riu das minhas verrugas, assim quando me conhecer não irá estranhar! rsrsrs


beijo grande, querida!

Patrícia Gonçalves disse...

Naty, nosso problema é não reconhecer ou perceber essa sabedoria.

Obrigada por compartilhar conosco!

beijo grande e sejam bem vindos!

Patrícia Gonçalves disse...

Oi Bípede, lindinha, vou tentar!!!

Bom saber que sente falta dos meus posts!

beijo grande!

Patrícia Gonçalves disse...

Sil, linda, seria ótimo se conseguíssemos separar, mas quem diz que sabemos identificar real de virtual. Já vi gente se apaixonar por quem nunca viu, olha que louco. Eu mesma! rsrsr. Também eu me apaixono fácil, fácil, e desapaixono também!

beijos linda!

Patrícia Gonçalves disse...

Mariane, obrigada, novamente! Não conhece minhas verrugas nem meus três olhos. Mas é muito bom saber que me vê assim.

Essa troca alimenta, enriquece, é fabuloso esse mundo da blogosfera!

Obrigada! Beijo grande, querida!

Patrícia Gonçalves disse...

Carmem, realmente, sem os outros não existimos, não há referencias.

Obrigada você pela visita!

Beijo grande!

Carol Morais disse...

Patrícia, isso é verdade! A gente se projeta num mundo virtual. Acaba sendo tudo o que gostaria de ser. Quando percebemos que somos muito diferentes da realidade, tomamos um baita susto.
Estou aprendendo a aceitar a realidade morando longe dos pais e estou adorando!
Um beijo enorme

meus instantes e momentos disse...

que bom teu blog...
Maurizio

F. Otavio M. Silva disse...

o ser humano gosta de brindcar de Deus mesmo. Concorde plenamente com vc, é sempre um busca própria.

Anga Mazle disse...

Oi, Patrícia!

Vim até aqui saber de você. Bem, na verdade (aproveitando para confessar um "crime" tipicamente internético, um dos sub-temas do post), vim saber por que você sumiu do DS...

Valeu, e muito, a repostagem. Esse é um assunto que interessa a todos que interagem via net. E que são chegados a reflexões, bem entendido.

Não vou comentar aqui tudo que o seu texto me tocou - cutucou! -, senão meu comentário ficaria talvez mais longo que o post. Só queria fazer uma observação.

Tenho a impressão que a "intimidade" virtual já invadiu o cotidiano real. Observo que de poucos anos prá cá as pessoas (sobretudo as mais novas) usam e abusam de expressões que antes eu só "ouvia" na net - como dizer a um quase completp estranho coisas como "te amo", "te adoooooooro", "beijos no seu coração" etc. Nada, é claro, contra os sentimentos que tais expressões possam conter, se ditas pra valer, sem leviandade. Mas será que é pra valer?... Fico meio em pânico quando alguém que acabou de me conhecer se despede "me levantando a blusa, me abrindo o ziper do tórax e lascando a boca no meu coração"! Me choca a indecência do esvaziamento, da vulgarização da palavra - e do abandono a que são relegados os sentimentos que deveriam ocupá-las. E o que é pior: desconfio que a maioria das pessoas que abusam da utilização dessas palavras amorosas são justamente as que parecem ter maior dificuldade de se lançar no amor. O que, talvez, seja o melhor a (não) fazer nesses tempos de vitualidade generalizada.

Afinal, pode haver coisa mais linda que o convívio de uma família reunida na sala, diante da TV ligada na novela, assistindo a uma cena em que uma familia está reunida na sala... conversando?!

Bjs

Anga Mazle disse...

Me ocorreu agora, Patrícia:
Posso me tornar, VIRTUALMENTE, a sua centésima seguidora!!!

Como??? - poderá estar se perguntado, justamente indignada, a Poupée Amélie.

Tentarei demonstrar...

Bjs

Patrícia Gonçalves disse...

Carol, temos que tomar cuidado, aqui já percebei que em função dos espaços que visitamos acabamos nos permitindo responder prontamente as demandas dos outros. Aqui realmente somos tudo, se a pessoa é carente tendemos a dar mais carinho, se a pessoa é seca e contida, você fica na sua, se há espaço para as brincadeiras você brinca. NO entanto, nesses espaços você é somente um fragmento de você.

Temos ânsia em atender o outro, em não desapontar. No futuro teremos que ter terapias para dar conta do nosso eu virtual!

Melhor coisa do mundo foi você passar um tempo longe, crescera assustadoramente e o melhor poderá ser você, sem preocupações maiores, terra estranha, com gente estranha, você também poderá ser estranha, rsrsr!

beijão

Patrícia Gonçalves disse...

Maurizio, que bom que gostou. O seu também é bastante interessante!

Patrícia Gonçalves disse...

Otavio, imagine, ser Deus aqui! Se bem que estou pensando em uma coisa, se o cérebro não sabe distinguir a realidade da fantasia, e se o que pensamos acaba virando realidade por conta da bendita lei da atração e "pensamento é energia", cara, é melhor eu me livrar das minhas verrugas urgentes!

beijão

Patrícia Gonçalves disse...

Anga, espero que agora eu esteja desculpada do sumiço!

Algumas vezes me incomoda esse excesso ou o esvaziamento do sentimento na palavra vazia.

Mas percebo que somos todos carentes, desejosos de sermos queridos, daí a abundância de expressões calorosas algumas vezes inapropriadas.

Eu mesma tenho um problema, me torno muita intima das pessoas na vida real, imagine na virtual! Tenho que tomar cuidado também como falo, caso contrario, posso estar invadindo!

Por favor, faça comentários, maior que o post! Preciso ser instigada, gosto!

beijo grande!

Patrícia Gonçalves disse...

Caros do DS, não precisam explicar a movimentação! Matemática simples! rsrsr

Pena, você não virou 100, ficou como 101!

Não importa, vou pensar em alguma coisa!

beijos!

Juan Moravagine Carneiro disse...

Gosto muito de vc e de seus escritos...

beijos

Patrícia Gonçalves disse...

A Juan, Rafael, obrigada!!! Eu também de você!!!!

beijos