domingo, agosto 08, 2010

Dias genéricos

Estava cansada da morte, decidiu que haveria de viver, sua opção era a vida. Viveu fundo a morte, foi triste, foi trágico, agora que acabou pensou em como viver. Primeiro viveu o luto, no inicio tentou negá-lo até que chegou tão fundo que sangrou, sangrou todas as dores, doeu fundo a solidão, a ausência. Talvez, lá no fundo houvesse um desejo de morte, mas se descobriu viva. Aí, teve medo da morte ser contagiosa, fez todos os exames, doía todos os órgãos, morria de medo do fígado e depois o intestino. Tanto procurou que descobriu hemangiomas, cistos e um puta medo de viver só. Estava só, ele havia ido embora, partido, todos aqueles meses, médicos, hospitais, cirurgias, e agora nada. Descobriu que não tinha nada, nada, nada que pudesse preencher, dar conta daquela ausência, se deu conta que a única coisa que tinha era seu próprio sentimento. O sentimento do outro fica com outro, o que nos alegra na relação é o saber amada. Assim, se deu conta de que estava só, e naquele momento a dor se fez mais forte. Não queria saber do seu amor, não queria sabê-lo presente. Tempos difíceis. Ainda bem, que o tempo passa, as estações passam e mudam as folhas, o céu fica mais azul e o sol tem o poder de nos aquecer. Hoje quando olha o ontem, ainda é visitada por um certo tipo dor, na verdade, não bem uma dor, uma saudade incômoda. Mas, quando se olha no espelho se vê mais forte, mais feliz e crescida. Mudou, tornou-se mais generosa, solidária, compreendeu o valor do tempo presente, do agora, o valor do eu te amo, do carinho. Ao longo do caminho as folhas caem, hoje os passos são mais silenciosos, a água do riacho corre e a brisa é fresca. Assim, quando é visitada por essas lembranças, abre as janelas do coração, deixa o sol entrar e aquecer tudo, o azul inunda, o verde cura e nesses momentos ela agradece a Deus pela vida, tão linda e tão preociosa.

P.S - Feliz dias dos pais!

11 comentários:

Lua Nova disse...

Bem... ela me parece "justa e certa, como água que volta a caber no leito do rio depois da enchente..." Que ela esteja feliz, com a alma e o corpo curados, emanando a luz da auto-estima recuperada, e o desejo de recomeçar e ser feliz.
É o que desejo a toda mulher que, um dia, sentiu a vida naufragar no desespero do amor que se vai.
Adoro seus textos.
Uma semana muito feliz e proveitosa pra vc, Pat.
Beijos.

Patrícia Gonçalves disse...

Obrigada, Lua Nova! O sentimento é realmente esse!

Beijo grande!

Angélica Lins disse...

Belas são as coisas que voc~e escreve.
Obrigada pela visita!
Beijo e uma ótima semana Patrícia.

Patrícia Gonçalves disse...

Angélica, obrigada você, que nem sol aqui no meu jardim!

Volte sempre e ótima semana também!

Helcio Maia disse...

Patrícia, possivelmente, um dos textos que mais gostei. Sabe por que? Além de sua habitual habilidade na tessitura das palavras, aqui há pulsação, sentimentos à flor da pele, um tom confessional, indisfarçado. Meu coração também balançou, soprado pelo vento da memória, senti na pele sensação térmica produzida por uma chuva fina, pelo desaparecimento de referenciais cronológicos, pela mistura caótica de papéis, roupas, lembranças, esperanças, crianças...
Crescimento que sucede o encolhimento, ressurreição da própria vida, em contato esporádico com o que a nega, com o que a cega.
Ah!! linda moça, mais que nunca, vontade de abraçá-la, ainda que à distância, mesmo que com palavras não ditas, mas o sentir que se realizou, por mais trôpego e desconcertado que tenha sido.
Feliz pós-dia dos pais.

Patrícia Gonçalves disse...

Helcio, obrigada pelas palavras e o abraço, com certeza meu dia já começou sendo feliz pós-dia dos pais!

beijão!

Sil.. disse...

Pat, ler seu texto me fez lembrar de folhas secas (cantada pela Elis).

É minha linda, o tempo passa, as folhas caem, e tudo se renova, fica lá trás.
E graças a Deus, que passa mesmo.
Mas cá pra nós, aprendi a olhar vezenquando pra trás, e não enxergar mais as lembranças.
Tudo o que passou, tudo o que eu deixei pra trás, ficou.
Não quero mais olhar cicatrizes.

Beijoooooooooooo!
Linda!

Valéria Sorohan disse...

Chuva de sol, como uma benção, a vida renasce com sua luz, a primavera já chegou (...) A terra negra torna-se verde, e as montanhas e o deserto, um belo jardim. (Carlos Santana )

Cris de Souza disse...

Gosto desses versos exaltados...

Beijos!

Juan Moravagine Carneiro disse...

Belíssimo...

Me desculpe pela minha ausência nos últimos dias, é que realmente eu andei sem tempo para nada...

abraço

Saulo Taveira disse...

Belíssimo, nada como a dor pra sentir-se vivo.
Adoro tua escrita. Lindo de morrer! hehe

Beijos.