segunda-feira, novembro 01, 2010

Ausência de verbo *

            Neste instante me vejo muda, calada, ausente de palavras e símbolos, perdida de significados. Qualquer instrumento afinado para tocar, descrever o momento. Notas surdas silenciam. Contemplação. Céu escuro pontilhado de estrelas. Infinitude. O ser desperto alça vôo e contempla sua própria eternidade. Mergulha no azul da prússia do universo, viaja a mais longínqua galáxia e traz poeira de estrela no bolso da alma. Quem somos e o que fazemos das nossas culpas, dos remorsos e todos quereres, tudo, tudo se perde neste abraço perfeito, na dobra do corpo que recebe o beijo. O caminho de volta para sempre perdido nas encruzilhadas das curvas, nos declives dos montes e bifurcações. 

         Cavalgada no prado, capim gordura que ondula, cheiro de mato, rocio cedo que umedece a face. O cavalo veloz imprime velocidade e voa no vento. Na corrida urgente carrega cabelos, boca, a mão que afaga a face. Beijos alados, doces, suaves, do sabor da flor, do amor, da paixão que vicia. No céu azul teu olhar na lua branca luzidia.

         Quando a noite se esconde e as estrelas repentinam se apagam, os corpos no caminho se perdem. Na perdição dos sentidos, a respiração trôpega se corta e entrecorta, suspensa lança os corpos em fuga, cúmplices das sombras mudas. Fogem alados os dois aliados, voam alto bem alto, puros e inocentes voltam ao paraíso, de onde foram há muito deportados, e agora retornam, finalmente, perdoados. Parceiros da louca aventura em caminho acidentado. Nau sem porto que resgata o branco da espuma, da onda que finda na praia. Viagem louca, caravana sem pouso, itinerante, de países perdidos e mares distantes. Seres encantados de contos de fadas, habitantes de cavernas e grutas escuras, despertos da hora convidam a celebrar. 

         Não quero voltar, me deixe lá, me abandone ao relento, perdida nas pedras, na areia, abraçada ao tronco da árvore, carvalho em flor. Quero ficar esquecida, esquecida de mim, da vida, perdida neste espaço de tempo nano eterno da minha pequena morte. Ah me deixe morrer, a morte é doce e nela me encontro. 



         Abro os olhos e nos vejo, abraçados, a representação do mais belo, estética divina, pintura, musica e toda poesia. Afinal, compreendo e sorrio tranqüila, agora sei, para este momento o verbo ainda não foi inventado.


P.S - * Reeditado, algumas vezes as emoções ficam preservadas nos textos e, ora e outra, é bom resgatá-los e lembrar que a vida vale muito a pena. Bjs, boa semana

16 comentários:

Paulo Francisco disse...

Parabéns pelo texto. Estou vindo do Partitura conferir o seu blog. Muito bom tudo por aqui...

Saulo Taveira disse...

Menina, você retira meu fôlego!
O texto é lindo, um amor amplo, um querer puro. O final, arrebatador.

Beijos, beijos, beijos e mil beijos são pouco.

Te adoro!

António Rosa disse...

Patrícia

Isto hoje não pára! Venho do blogue do Saulo onde li o poema do Paulo Francisco e vi e ouvi Maria Bethânia a falar de um evento em Lisboa que quis o destino que eu estivesse presente. Agora, chego aqui e deparo-me com este texto soberbo, lindo de morrer.

Vou tentar estar vivo quando o Thomaz cumprir o que co-criou: «Quando eu for presidente do Brasil vou dar luz pra todo mundo.»

Fim de tarde em beleza.

Beijos

António

carmen silvia presotto disse...

Que bom este resgate repleto da mais fina prosa poética e morrer de amor é o desejo de todos, que bom te ler!!!

Um beijo.

Juan Moravagine Carneiro disse...

Belo texto...

abraço

Valéria Sorohan disse...

Einteração de imagem, vivências plásticas e poesia está lindo, cada vez mais afinada. Só tenho pena que o tempo seja tão curto e não possa voltar aqui tanto quanto desejaria.

BeijooO*

afonso rocha disse...

Menina....
fiquei mudo...calado...sem palavras...

só consigo escrever...
que maravilhoso texto!!!!

...atrasado...mas obrigatório visitar-te! As minhas desculpas...

Beijos, Pat

Marcio Nicolau disse...

valeu mesmo a pena o resgate. Tua pena escreve sempre sobre estes momentos para os quais o verbo ainda não foi inventado. Um sonho o texto.

Patrícia Gonçalves disse...

Paulo Francisco, seja muito bem vindo!

Fico feliz que tenha gostado!!!

Patrícia Gonçalves disse...

Saulo, que bom que gostou, esse texto fala realmente de um amor puro, muito bonito.

Te adoro, eu!!!!

P.S _ Nao vejo a hora de sexta chegar!!!

Patrícia Gonçalves disse...

Antonio, algumas vezes parece que encontros acontecem de forma a nos encantar.

Espero que o Thomaz mude de idéia, quero dizer, quanto a presidente, mas pode continuar irradiando luz para todo mundo!

beijos querido!!

Patrícia Gonçalves disse...

Carmem, quer melhor sentimento que esse? De perder de amor e se encontrar e se encantar...

beijos!

Patrícia Gonçalves disse...

Juan, obrigada, bom te ver por aqui!

beijos

Patrícia Gonçalves disse...

Valeria, obrigada, é uma pena mesmo a gente não poder acompanhar todo os blogs. Mas, quando puder, venha!

beijos

Patrícia Gonçalves disse...

Seu Afonso, muito obrigada, fico feliz pela visita!!!! E, sem essa de desculpas!!!

beijo grande!

Patrícia Gonçalves disse...

Marcio, é bom resgatarmos esses momentos. Que bom que gostou!

beijos!!!