segunda-feira, novembro 08, 2010

Vida que transborda

"Desenrolou o novelo calmamente e buscava com o olhar o ponto onde poderia haver o nó, puxou toda a lã e assentou pacientemente entre os dentes do pente do tear. A manhã passava tranqüila, assim como seus pensamentos, seus movimentos ritmados pareciam um bailado tramando contra o tempo e os dias gentis. Parou, esticou braços e pernas e olhou pela janela, a manhã cinzenta já ia longe e nem sinal do sol. Deitou um olhar sobre o jardim de lavanda e deixou-se levar pelo perfume, distante e mesmo assim presente percebeu um tom entre os matizes das flores que poderia aplicar e destacar o desenho de sua manta. Ainda olhando pela janela, descontente viu que seu pé de tomates carregado precisava de um esteio. Praguejou baixinho, em um lampejo viu que sua vida se assemelhava a aquele jardim, carecia de novos matizes e de um esteio."

Interessante o exercício de ser possuída pelas palavras, poderia ser um exercício de vidas passadas... Em um abandono elas chegam, sem qualquer pretensão, sem saber previamente o enredo, elas se enfileiram e vão formando uma história. De quem, como, quando, nenhuma pista, simplesmente se apresentam e dão forma a um momento que com certeza deve dizer algo para algum lugar de mim, alguma memória, algum espaço, vida, dimensão que eu tenha ocupado ou então, é meu eu se apresentando para me confortar e dizer que sou muito mais que tudo isto, a vida transborda mesmo quando nem damos conta.

11 comentários:

Bípede Falante disse...

que interessante comparação de as palavras serem vidas passadas!!! muito inteligente, Patrícia!
bjs

Helcio Maia disse...

Todas as vidas precisam de um esteio. Há que ter tempo para tudo, inlusive, para fazer nada, para nada pensar, para que nada pese e seu corpo e sua mente e seu espírito possam flutuar, bem acima das artimanhas chatas do consciente viciado.
Que transborde mesmo a vida, que você dela se inunde e se lambuze, infatigavelmente.
Beijo e abraço.

Carol Morais disse...

é bem louco mesmo como as palavras parecem surgir do nada...e do nada dizemos tudo que pensamos. E não sabemos como pensamos naquilo ou porque...Vidas passadas parece ser a melhor explicação.
A vida transborda sim, minha querida, todo momento. As vezes a gente se torna meio insensivel e nao percebe muito tudo que está ao nosso redor...e fica tudo meio quadrado e meio escuro.
Obrigada por trazer círculos eternos de novo à minha cabeça e me fazer pensar em tudo que eu penso de vez em quando..inventando teorias malucas na minha mente doida!

carmen silvia presotto disse...

É a vida transborda, sim. e de ato em ato vamos desfiando os novelos do viver, teu escrito revela, desvela, cutuca sempre!

Beijos

A.S. disse...

Patricia...

Gosto de te ler... despertas emoções!!!


Beijos
AL

MariAne disse...

Lindas palavras escritas da alma!

Teu tempo de descobertas,
sentimentos adormecidos
sonhos esquecidos
o desconhecido se fazendo presente
tua vida reinventada!

Moça, se gostas de música, indico uma que postei la em casa sob o titulo RICAmizada, de um compositor daqui da minha terra.

Beijos
da Mari

António Rosa disse...

Olá Patrícia, vim agradecer-lhe e deixar-lhe um abraço por ter ido ontem à festa que houve no 'Cova do Urso'. Só não vim mais cedo, por falta de tempo.

António

Marcio Nicolau disse...

transbordo também ao te ler.

Patrícia Gonçalves disse...

Bípede, o ato de escrever me intriga muito, de onde saem essas palavras e histórias, nem eu mesma sei o que vai dar...
bjs

Patrícia Gonçalves disse...

Helcio, como preciso me lambuzar de vida, muito. Já estou começando!!!

bjs, querido!

Patrícia Gonçalves disse...

Carol lindinha, acabei de dizer isso para a Bipede, tudo muito louco essa máquina de idéias!

Pois é Carol, as vezes perdemos contato com a vida, entramos no modo automático e então "PUM"!!!

bjs